Friday, July 21, 2006

Judith Teixeira: uma poetisa de Viseu no Modernismo português

Que ninguém fale contra este estranho e esquecido canto. Ritmo selvagem que é, vão estas palavras do fragor do fogo embater no impossível esquecimento. Afinal, que país somos e que literatura queremos, se assim ocultamos uma Judith Teixeira, mulher modernista, misto de Florbela Espanca e Irene Lisboa, com laivos esteticistas à Mário de Sá-Carneiro? Quantas mulheres assim, nas páginas de história literária, que a tornem mesmo deslembrada dos seus mais próximos e dos burocratas da cultura?
Com o pretexto dos oitenta anos que passam sobre o início da colaboração de Judith Teixeira (1880-1959) com a revista Contemporânea, é o momento de afirmar o injusto esquecimento a que tem estado votada a singularíssima mulher-poeta viseense. Afinal, trata-se da única mulher no modernismo português, com ligações documentáveis ao ultraísmo espanhol.
Sinceramente penso que Judith Teixeira - a mulher-cometa que, devedora do decadentismo epigonal e da vertigem modernista cruzou a década de vinte - merece um lugar de razoável visibilidade na nossa literatura, não obstante o estranhíssimo silêncio com que tem sido contemplada pela grande maioria dos historiadores e estudiosos da "coisa literária".
A actividade poética de Judith Teixeira, e não cessam aí os seus méritos, encerra a revelação, a sabedoria e, obviamente, o amor, características que, aliás, conduzem ao conhecimento do ser original. Dessa voragem autognósica, que é também iluminação do ser e poetização subjectiva do ser, destaca-se uma original e interactiva apropriação dos kierkegaardianos estádios imediatos de Eros , podendo um mesmo poema apresentar três estádios que vão da contemplação melancólica à consumação desviante. E o que ressuma desse vórtice poético é sempre, com o acúmulo de vozes autoritárias que cada vez mais despontam, a certeza de se estar perante uma voz feminina originalmente viva.
Judith Teixeira é uma voz lírica que é um dos grandes poetas do amor do nosso século. Marginalizada por muitos, ela cumpriu uma expiação que só os eleitos ousam sofrer e superar. Mas, afinal, não é da margem que se vê melhor? Não procura o Amor, como codiciosamente o notou Kierkegaard , um recanto isolado?
É o momento dos dias limpos para uma voz sonegada e esquecida. Judith Teixeira, lenta e seguramente, vai emergindo pela força de múltiplas vozes que têm vindo a privar com o fogo das palavras descomprometidas.
Muito tempo passou sobre aquele grito valorativo e contristado de Aquilino Ribeiro contra a intolerância. Judith, sujeito sem sujeição, que muito antes "dos nossos dias", como diria um Eugénio de Andrade, se deu ao corpo e, por via disso, à voz do silêncio.
Este é, por isso, mais um passo contra a obscuridade que reputo da mais vincada importância. Um passo ao lado de outros passos, à espera de novas incisões.
Os de fora da literatura dirão que este é um excurso de arqueologia literária. Afirmando e infirmando, sem perder de vista a munificiência do labor intelectual que sempre comporta dissentimentos ecdóticos e hermenêuticos, bem como indecisões e dúvidas derivadas de lacunas e de impossibilidades investigativas, é certo que a minha perquirição judithiana permite já o protaimento da amplitude da acção literária da mulher-poeta em quem um Albino Forjaz Sampaio divisava já a originalidade e o interesse artístico. Não se limita a sua acção literária à década de vinte. O conhecimento textual da obra de Judith Teixeira permite agora, com os materiais por mim carreados, a fixação do terminus a quo no ano de 1918 e o do terminus ad quem no ano de 1938, alargando para vinte anos o campo de análise dos ainda poucos mas determinados escoliastas judithianos. Sei, no entanto, como o diz a poetisa, que “Há-de chegar o dia / em que a [...] tristeza há-de acabar...”. Vai chegando em cada dia que passa.
De Judith Teixeira e dos seus oceanos rubros de sensualidade, um longo caminho trilhado ao sabor do sentimento, ressuma uma notável originalidade e a indiscutível força afirmativa de uma mulher que desafiava quaisquer estereótipos associados ao mundo feminino, sem o mais leve assomo de sexismo ou de reinvindicação parler femme , o que parece um mergulho parcial nos quesitos futuristas, sempre infensos ao feminismo e à debilidade. Tal presença do eu assertivo, que se estende a toda obra da escritora viseense, tem principalmente lugar na década de vinte do século que, de acordo com Norbert Elias, assistiu, com o acesso das mulheres a uma identidade própria, à maior revolução da história da sociedades ocidentais.
A permanência de um forte e instante eu na poetisa de Decadência exemplifica um espírito que, não obstante o dominante subtrato decadentista e o, por vezes, exuberante modernismo, percorre a cultura portuguesa e que se revela naquela cosmovisão peculiar com raízes no saudosismo, no solitarismo vivencial e no inquietismo. António Manuel Couto Viana, referindo-se ao lirismo de Judith Teixeira, defende tratar-se de uma "poesia nocturna, dionisíaca, que poucas vezes a alegria solar veste de luz."
Judith Teixeira, forte eu-assertivo, não é uma identidade dominada, porque, afinal, para um espírito de livre-exame, ser sujeito não poderia ser sujeitar-se. E esse é o voo da condição humana em busca da transcendência e da liberdade.
Voo final que afirma que o dissídio vivencial judithiano e o conexo alor lírico desrealizante são uma marca infungível na literatura portuguesa e um corte exicial com o esquecimento, como o parece dizer, desde há muito, este passo judithiano modulado por mim em palavra final:


Minha alma ergueu-se para além de ti...
Tive a ânsia de mais alto
-abri as asas ,parti!

Outubro
1922

2 comments:

jorge said...

Portugal é pródigo em esquecer-se de Si e dos seus Poetas... Judith Teixeira representa, a par de Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoaes, uma época e a sua sensibilidade. É uma das mais importantes representantes desse movimento emanado por essa corrente de gerações que povoou os principios do ultimo século do milénio passado. Agora, agora que recomeçamos há que acolher e divulgar a nossa herança maior: a Língua, que é a nossa pátria existencial, é na linguagem que nós repousamos os pensamentos.

Teresa Rebelo said...

Gostaria de saber como ter acesso a esta revista Europa (estudos judithianos)e agradeia que alguém me respondesse para o meu e-mail

tmargaridarebelo@gmail.com

TRebelo