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Monday, August 18, 2014

Álvaro Virgílio de Franco Teixeira e Judith Teixeira

Álvaro Virgílio de Franco Teixeira e Judith Teixeira

Depois de ter estado casada com Jaime Levy Azancot (*27.03.1876), filho de António Azancot (*1830), nascido em Tânger, e de Meriam Levy Benuyli (*24.06.1843), nascida em Gibraltar, ambos os pais de famílias de raiz hebraica, Judith Teixeira veio a casar no Luso, com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira (Lisboa, São José, 13.01.1888), filho de Luís Virgílio Teixeira[1] e Zulmira d’ Almeida Franco Teixeira[2].
Ao invés de um troço assertivo de pelo menos duas décadas, quis o tempo que Judith Teixeira escrevesse o capítulo da chegada ao ponto «em que já não se diz eu»[3]. Deixemos por agora o fulgor e a recaída de um belo trajeto artístico, olhando para o desenho vital do homem e marido que veio a contribuir definitivamente para o emblema significativo da marca poética nominal – afinal, Judith é Teixeira porque casou com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira, parecendo, sem ironia, que o primeiro elemento denominativo, de origem judaica, encaixava integralmente com o primeiro casamento havido com Jaime Levy Azancot.
Ora, o passado de Álvaro Teixeira desvela-se, por exemplo, na obra de Diamantino Calisto intitulada Costumes académicos de antanho (1898/1950), quando se contam alguns interessantes e divertidos episódios dos estudantes coimbrãos de início do século XX. Aprecie-se o quadro:
As partidas feitas e organizadas pelo Trindade Coelho[4], alma de eleição, poeta primoroso e espírito cintilante, aos companheiros de casa, marcavam pela graça e por serem inofensivas.
Contarei algumas:
O «caloiro» Álvaro Virgílio Teixeira, belíssimo rapaz, esperto, mas ainda muito inocente, dispunha de dinheiro, tendo crédito aberto na importante casa comercial Gaito & Canas[5].
Era neto do «saudoso», no dizer dos Mestres, Visconde de Seabra[6].
Apesar de ser bom estudante, lembrou-se um dia de dar umas faltas justificadas, por doença.
Pediu ao Trindade Coelho para ir chamar o Dr. Daniel de Matos[7], a fim de este lhe passar o respectivo atestado.
De que se há-de lembrar o Trindade Coelho?
Não chamar o Dr. Daniel e pregar um tremendo susto ao «caloiro».
Se bem o pensou… bem o fez.
Disse ao «caloiro» que o Reitor da Universidade, tendo-lhe chegado ao conhecimento de que ele não se encontrava doente de facto, tinha tomado todas as providências para que o Dr. Daniel não acorresse à chamada, e para que «dois Lentes» de Medicina o fossem examinar, enviando à Reitoria o respectivo relatório.
À tarde apareciam os «tais Lentes», Chico Pedro e Matos Chaves[8], alunos de Medicina, vestidos à futrica, os quais depois de um exame «circunstanciado» ao «caloiro», terminaram por declarar que ele estava… de perfeita saúde.
O «caloiro» bem se queixou de todas as doenças, mas os «Lentes», imperturbáveis, saíram, tendo cobrado, cada um, 2.500 réis.
Aflito, o «caloiro», pede então ao seu «algoz» para mandar um telegrama ao pai, a fim dele vir imediatamente.
Forjou-se um telegrama tão extenso, que importou em 2.455 réis!
Esse telegrama, escrito em papel aparte do respectivo impresso, foi substituído por outro enviado a um amigo do Trindade, no qual se pedia para ele mandar um telegrama em nome do pai do «caloiro», dizendo que a Universidade o proibia de entrar em Coimbra.
Este telegrama, também escrito em papel aparte e colado no impresso, foi devolvido com a declaração de que não podia seguir nos termos do artigo… do Regulamento dos Telégrafos.
Substituindo então este pelo primeiro, foi dito e «provado» ao «caloiro», que o seu telegrama não podia seguir por ordem da Universidade!
A aflição do «caloiro» era cada vez maior, considerando-se já com o ano perdido. O Trindade Coelho alvitrou então ao «caloiro» a necessidade, talvez salvatória, de alguém, amigo ou parente do Dr. Calisto, pedir a este toda a sua benevolência para o caso e lembrou-lhe, para isso, o sobrinho.
Posto ao corrente do que se estava passando pelo Trindade Coelho, este disse-me para ir ao quarto do «caloiro», que me pediu, quase de mãos postas, para o salvar.
Prometi-lhe que iria empregar todo o meu «valimento» junto daquele meu parente, mas que não podia garantir o êxito da minha démarche em vista do caso se me apresentar muito complicado.
À tarde, disse-lhe que tinha feito o pedido e que tinha sido atendido.
No dia seguinte reapareceram os mesmos «Lentes» que «achando-o já doente», disseram ir comunicar o facto à Reitoria.
Ao retirar-se, cobraram mais 2.500 réis, cada um, deixando-lhe o peito pintado com tintura de iodo.
O Dr. Daniel de Matos achou graça à partida e lá foi salvar o rapazinho passando-lhe o atestado.
Ao jantar, depois de se verificar que havia em cofre 12.455 réis, propuz que, em sinal de regosijo por ele não ter perdido o ano, se oferecesse uma ceia ao «caloiro».
O «caloiro», comovido, protestou energicamente, pois era a ele que «cumpria pagar».
Chegou-se contudo a este acordo: se a despesa com ceia fosse superior áquela importância, única que possuíamos, o «caloiro» entraria com o que faltasse.
Era uma hora da noite, quando eu e o «caloiro» nos dirigimos para o «João Magrinho»[9], onde já se encontravam os restantes convidados, entre os quais os «Lentes» que acompanharam à guitarra e à viola as cantadeiras do fado.
O «caloiro», só então, viu tudo…
Mas já era tarde.[10]    

Álvaro Virgílio de Franco Teixeira casou com Judith Teixeira no dia 22 de abril de 1914. Como o diz o registo de casamento[11], o consórcio ocorreu em casa do noivo, no Bussaco e das testemunhas presentes ao ato nenhuma quis ser considerada padrinho ou madrinha. Estiveram presentes: Albertina Pereira de Matos, doméstica; Sara Serra Lopes de Moraes, doméstica; Ilídio Pereira de Matos, comerciante; e Alexandre Lopes de Moraes, comerciante.
É esta a sina de Judith Teixeira – uma adstringência ao banimento, uma pulverização de tudo, uma desconsideração. E, no entanto, todos os exílios nada podem contra o verso rútilo em que vive.




[1] Natural da freguesia de Santa Justa, em Lisboa, com a profissão de proprietário.
[2] Natural do Rio de Janeiro, Brasil, e doméstica de profissão.
[3] Gilles Deleuze e Feliz Guattari, Rizoma, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, p. 7.
[4] Trata-se de Henrique Trindade Coelho (1885-1934), primeiramente poeta, e depois político, jornalista e diplomata. Não deve ser confundido com José Francisco Trindade Coelho (1861-1908), notável contista, didata, pedagogo e jurista, de quem era filho. Notas minhas.
[5] Lemos, por exemplo, na Gazeta de Coimbra de 18 de setembro de 1920, nº 1057, que a firma Gaito & Canas esteve estabelecida, em Coimbra, na rua (calçada) do Cego. Já o anterior 5 de Outubro de outubro de 1913 informa que a empresa coimbrã se chamava «Mercearia Lusitana», com especialidade em géneros de mercearia, materiais para construção, compra e venda de papéis de crédito, bem como seguros contra fogo. A antiguidade da casa é dada pelo telefone nº 8. Notas minhas.
[6] De facto, António Luís de Seabra e Sousa (1798-1895) veio a casar, depois do primeiro esponsal havido com a prima co-irmã Doroteia Honorata Ferreira de Seabra da Mota e Silva, com Ana de Jesus Teixeira, avó de Álvaro Virgílio de Franco Teixeira. Ana de Jesus Teixeira casava-se também pela segunda vez e fora casada com Manuel Joaquim Teixeira. Notas minhas.
[7] Daniel de Matos (1850-1921) é um reconhecido médico e professor universitário.
[8] Certamente, o futuro doutor Alfredo Matos Chaves, tantas vezes presente em celebrações e representações da academia, como encenador, ponto e caracterizador.
[9] Veja-se, v.g., Elísio Estanque, «Juventude, boémia e movimentos sociais: culturas e lutas estudantis na universidade de Coimbra», in Política & Sociedade, vol. 9, nº 16, abril de 2010, p. 266 e a referência à antiga fama do «Magrinho e os seus acepipes em cubículos de lona».
[10] Diamantino Calixto, op. cit., Porto, Imprensa Moderna, L.da, 1950, pp. 117-119. Foi mantida a ortografia do original. Este episódio foi republicado, com ligeiríssimas alterações, em 1958: Diamantino da Mara Calisto, «Chateau Rose – a minha república», in Rua Larga – Revista dos Antigos Estudantes de Coimbra, nº 9, Coimbra, 20 de janeiro de 1958, pp. 256-258.
[11] Luso, 1914, livro 4º, registo 66, Conservatória do Registo Civil de Mealhada.