Friday, June 09, 2006

ligações fecundas: Aquilino Ribeiro & Judith Teixeira


Ligação fecunda anuncio de Aquilino Ribeiro, com cinco anos menos do que Judith Teixeira, que na cidade de Viseu nascera naquele ano de 1880. O futuro “Mestre da Nave” veria a luz do dia volvido um lustro, por 1885, na fagueira e rigorosa Tabosa (ou melhor, Carregal). E será esse espaço de tempo distanciador, mínimo à escala cósmica e muitas vezes importante nas relações humanas, que unirá como que por encanto este par literário da nossa cultura para uma vida diferente de próxima longevidade. Pense-se, nestes encontros e desencontros, que Aquilino morre com incompletos 78 anos (1963) e que Judith Teixeira falecera com 79 anos completos (1959).
Abandono Aquilino e pego em Judith, poetisa viseense de arrojo indenegável e, seguramente, um dos casos mais interessantes e obscuros da literatura feminina do nosso século XX . Ei-la que nasce em Viseu, ao tempo em que Simões Dias se dedicava como poucos à nossa cidade, em que as famílias viseenses (as letradas, claro) consumiam o seu tempo na leitura do D. Jaime de Tomás Ribeiro, em que (por exemplo) o médico benemérito Duarte de Almeida Loureiro e Vasconcelos encantava a cidade com a sua bondade e dedicação, em que muitos símbolos da nossa urbe procuravam ainda o seu lugar (como era diferente a zona do Rossio!), em que o virtuoso José Ribeiro de Carvalho e Silva regressava à cidade, em que o Padre Moura acabara de construir um órgão portátil (para celebrar a poetisa?), em que se preparava a inauguração da Praça 2 de Maio, em que...
Judith segue para Lisboa, onde viverá atribuladamente. Aquilino é o que se sabe: enquanto rebenta, em 1907, uma bomba no seu quarto, a poetisa é perfilhada por Francisco dos Reis Ramos, assim colocando alguma ordem na sua vida difícil. Em 1913, é dissolvido o casamento da mulher intelectual com Levy Azancot; a ironia do destino permite que, nesse mesmo ano, Aquilino Ribeiro case na Alemanha com Grete Tiedemann – e não são de estranhar, neste conjunto de dados e incidências, os apelidos estrangeiros dos felizes e infelizes consortes. Em 1914, o escritor vê nascer o primeiro filho, Aníbal Aquilino Ribeiro; no mesmo ano, Judith volta a casar, desta vez com o advogado e industrial Álvaro Virgílio de Franco Teixeira. Em 1922, Judith Teixeira colabora visivelmente na famosa revista Contemporânea, deixando alguns poemas numa publicação periódica “feita expressamente para gente civilizada” e “feita expressamente para civilizar gente”, e tida por muitos como um dos expoentes do nosso Modernismo; nesse mesmo ano, Aquilino, que era já um autor reconhecido e admirado (publicara Jardim das Tormentas, A Via Sinuosa, Terras do Demo e Filhas de Babilónia), conhece dias de perfeita glória intelectual – afinal, publicara a Recreação Periódica do Cavaleiro de Oliveira, o livro de contos Estrada de Santiago e tornara pública a conferência “Anatole France”.
Chega 1923 e sai a lume o primeiro livro de Judith Teixeira, Decadência, que conhece desde logo o aval de alguma imprensa da época. No entanto, as garras da intolerância cedo se manifestam pela boca de Pedro Teotónio Pereira e pelo jornal a quem concede uma entrevista. Instado sobre o que pretendia fazer a sua Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, de intenção repressiva e preventiva (?), Teotónio Pereira não tem dúvidas: "Fiscalizar as livrarias e meter também na ordem os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais como este, aquele e aqueloutro ." A edição perde-se nas malhas inquisitoriais. Da apreensão ao fogo vai um instante. O Governo Civil de Lisboa solta os mastins. Para lá de Decadência , são arrestadas para as cinzas a Sodoma Divinizada , de Raúl Leal, e as Canções , de António Botto. Não muito tempo depois, proíbe-se a peça Mar Alto , de António Ferro. Tudo em nome da moralidade em arte.
Aqui entra Aquilino, com a sua nobre justiça. "Que é moral ou imoral em arte?" , clamou bem alto, à época, o nosso escritor,referindo-se ao acirramento das autoridades. E mais disse nesse ano de 1923, reverberando frontalmente a censura que apreendeu o “livro da srª. D. Judith Teixeira, que é uma poetisa de valor”. Tais palavras, ditas assim desse modo, constituem um dos mais importantes actos judicativos sobre o lugar poético da escritora viseense.
É uma relação produtiva aquele que une os dois artistas. No bulício do escândalo e na aceitável curiosidade jornalística, Judith Teixeira é surpreendida a ler o recente livro de Aquilino Ribeiro Estrada de Santiago. Em entrevista a José Dias Sancho, a escritora refere-se, nesse mesmo ano de 1923, ao autor de Terras do Demo como um daqueles que “seduzem com sua Arte polícroma, intensa, luminosa.”
Em 1925, Judith Teixeira dirige na capital a revista Europa e nela, nos únicos três números saídos nesse mesmo ano, não deixa de estar presente o nome de Aquilino Ribeiro, que colabora no terceiro número.
Implicado na revolta contra a Ditadura Militar, Aquilino foge, em 1927, para a Beira Alta e daqui vai para França; Judith, que publicara Satânia, parece ter-se retirado para Espanha, finalizando, ao que se sabe, a parte mais visível da sua produção literária.
Em 1959, morrem Judith Teixeira, António Botto e Lasso de la Vega, figuras que conviveram entre si na década de 20. E muitas vezes o fizeram em casa da poetisa. Então, no momento da morte da escritora viseense, Aquilino é perseguido por via da publicação do romance apreendido Quando os Lobos Uivam. Nem cinco anos passados morreria Aquilino.
Da incompletude da vida, resta este halo relacional de produtividade e de encontros não desprezíveis. Desse fogo vai nascendo ainda uma figura não despicienda do nosso Modernismo. Basta olhar para a cidade e para a voz insinuada da velha Safo.

2 comments:

isabel mendes ferreira said...

excelentérrimo encontro...para que nada seja esquecido....aqui se desvela de facto o amor pela "ESCRITA".

que bom que é que haja quem não adormeça à sombra do tempo....que bom ler. aqui. e recordar e reaprender que só se sobrevive SABENDO.


obrigado Martim..

um bom domingo.
beijo.

porfirio said...

:

grande génio estremece sempre outro grande génio.

abraço