Saturday, September 23, 2006

Judith e a tragédia modernista

Fotografia de David Sanger (Alemanha, Wiesbaden, "Figura de Tragédia" - Monumento a Schiller, Teatro Hesse)



Intencionalmente comunicativa, a fábula é narração e é intriga, correndo célere para o recorte moralizador. Tal segmento moral, de nome epimítio e quase sempre a última frase, sintetiza o ensinamento fabular. Assim esta coluna de anos, procurando mostrar.
Para ser mestre modernista, foi Almada a Madrid e teve de existir a regiana “presença”. Nesse mesmo ano de 1927, abandona Judith Teixeira e ruma a Espanha, mal olhando as provas de “Satânia”. Em breve, imersa na década seguinte, sobre si cai o silêncio. Desconhecido como poeta na década de 20, Luís de Montalvor é a alma da editora Ática e morrerá tragicamente nas águas do Tejo, em 1947. No início da década de 20, morre em Rilhafoles Ângelo de Lima, poeta enigmaticamente lúcido. Santa Rita Pintor e Sousa Cardoso morrem ignorados, participando António Ferro na humilhação de Fernando Pessoa, ao distinguir Vasco Reis e ao preterir a “Mensagem”. Breve, o fígado cede. Ao tempo, Raul Real, o da “literatura de Sodoma”, apodrece nas tabernas do Bairro Alto. Botto, defendido por Leal e por Pessoa, extravasa a decência e abandona o país, morrendo, estranhamente ou não, em 1959, como Judith Teixeira, morta desde há muito para a literatura. Em 1916, Mário de Sá-Carneiro, não conseguindo esmagar-se debaixo das rodas do metro, na estação do Pigalle, suicida-se com estricnina num hotel parisiense. Alexandre d’ Aragão, mais eficaz, encosta o pescoço aos “rails” de comboio no Choupal e morre trucidado, em 1930. Mário de Saa, que viu recentemente publicada a sua obra poética pela IN-CM, nenhum livro de poesia publica durante o seu período de vida. Em 1949, Carlos Queiroz sucumbe, subitamente, em Paris. Quase ao mesmo tempo e no mesmo ano, em Castelo de Vide, morre Francisco Bugalho, a quem há pouco falecera o prometedor poeta e filho Cristóvão de Pavia.
O esquiliano Prometeu ensina a que esgotemos o destino que nos coube. Até final, há nas gerações modernistas uma dor que ninguém apaga.

Friday, September 22, 2006

o poemeto das sombras



O POEMETO DAS SOMBRAS


Ruge lá fora a ventania
e as árvores vergando, desfolhadas,
vão gemendo, como almas na agonia,
contorcidas, desvairadas.

À meia-noite,
a voz do sino, pesada e densa,
passa estridulando,
como se uma boca cavernosa, imensa,
nos predissesse negramente, malsinando!...

Há lares em festa -
e fome pelos caminhos
da desgraça.
E a minha amargura
vai subindo
na voragem funesta
de clamor que passa!

Meu Deus!
Por que é que os inocentes, pobrezinhos,
não têm pão?
Por que é que nesta noite em que nasceu Jesus
o Céu, não se sorri, cheio de luz?

Quebram-se soluços na rajada...
Exalo-me em tédio! vibra o meu tormento -
eu trago revestida a alma de saudades
nem eu já sei há quanto tempo!...

Sobre a seda vermelha que me envolve.
a luz vai entornando
vagas tonalidades - violetas...
e lá fora batalham peito a peito,
revolvendo as trevas ululando,
longos fantasmas
de negras silhuetas!

Judith Teixeira

Thursday, September 21, 2006

Judith Teixeira e o Modernismo

"Somos o assunto do dia em Lisboa."(Fernando Pessoa a Cortes-Rodrigues)
A natureza humana mudou. O assunto do dia em Lisboa era reconhecer, de algum modo, que a natureza humana mudara e se desadaptara. Uma Virgínia Woolf, em frases que devieram célebres, sintetizou a emergência do Modernismo do seguinte modo: "On or about December 1910 human nature changed... All human retlations shifted - those between masters and servants, husbands and wives, parents and children. And when human relations change there is at the same time a change in religion, conduct, plotics, and literature."[1] Tal premência do lado de dentro do homem, que tem que ver com agitação, trabalho e visibilidade, e até por aí os lugares modernistas se intersectam com os modos decadentistas, no sentido até da tal sutura sem rompimento, explica-a exemplarmente um Fernando Pessoa, quando diagnosticou, num dos seus textos íntimos, existir em cada homem moderno um neuratésnico que tem de trabalhar. O asserto pessoano em epígrafe é corroborado, nas suas implicações, por um Américo António Lindeza Diogo, por exemplo, que, acentuando o cosmopolitismo do Modernismo, diz que ele é, antes de tudo, "um movimento artístico e literário cosmopolita, com a sua série literária de grandes e pequenas capitais: Paris, Berlim, Viena, Praga, Londres, Dublin, Lisboa."[2] E assim a cidade ganha óbvio interesse, porque, afinal, ela é cultura e o Modernismo que por todo o lado vinga é uma arte tendencialmente urbana, próxima de uma sociedade tecnológica e desenvolvida.[3]Estranheza, alienação e crise de valores são classificações que facilmente colam aos nossos modernistas, que viviam a poesia como um mito real. Deste modo, o Modernismo é "uma arte da crise", que, como o defende Osvaldo Silvestre, responde, no plano psicossocial, "ao imaginário tecno-científico e urbano da modernidade com uma mimese críptica, ou hipocrática, praticando para tal uma ruína da forma e consequente celebração do valor epifânico do fragmento"[4], não sendo alheios a esta panorâmica agónica traços como o esboroar do campo teológico, com o conexo engurgitamento das esferas racionais, a derrota do sujeito transcendental face à dominação nietzschiana, freudiana e darwiniana, a desolação bélica provocada pela Grande Guerra, ou o primado do cosmopolitismo sobre o tradicionalismo, vividos em conjunto ou em parte, por um sujeito que é peça funcional de um mundo frio ou, ao contrário, por um ser multifronte, estrangeiro dentro de si, olhando-se descentrado e ironicamente plural.De acordo com o código técnico-compositivo de predominância modernista, a colagem será um estratagema funcional, moderada, na abertura e vertente difusa, pelas repetições e pela disseminação de narrativas mítico-simbólicas de encaixe tectónico, a que um Eliot chamava "método mítico", gerando-se assim, num misto de ironia e de racionalidade, uma corrente de sentido.O modernismo português é animado pelo inconformismo assinalado, sendo uma "tomada de consciência cultural de uma geração desejosa de renovar a literatura e as artes portuguesas, tomando como modelo o grande movimento do vanguardismo europeu iniciado com o Manifesto futurista de Marinetti, de 1909."[5] Abraçando a modernidade activa, e um excelente exemplo dessa agilidade é o polimorfo Almada Negreiros, o Modernismo português acentua o abandono dos artefactos do passado em detrimento do novismo que o movimento artístico dialecticamente sulcava na ágora lisboeta.E foi em Lisboa, a partir de 1913, mas também em Goa, nesse mesmo ano, que se veio a formar este movimento, não sendo despiciendo, neste particular, relembrar as informações inovadoras que a lusitanista ítalo-brasileira Sandra Bagno fornece ao defender, com provas irrefutáveis, que o terminus a quo das relações da modernidade literária portuguesa com o futurismo de Marinetti deve ser reposicionado em Julho de 1913[6], por via da publicação, nessa data, da Revista da Índia , que continha, no editorial programático de Paulino Dias[7], uma nítida pregnância de influência marinettiana com o fito expresso da deflagração do renascimento cultural indiano. Sem grande discussão, é certo que, sendo ao tempo a Índia uma possessão portuguesa, a precedência goesa é um facto. No entanto, o movimento modernista lisboeta - que se começa a esboçar no mesmo ano de 1913 e adquire visibilidade em finais de Março ou em Abril de 1915, com a publicação da Orpheu , - parecia ter uma outra consistência grupal, como muito bem o faz notar Luís de Montalvor nesse número nascente: "ORPHEU, necessita de vida e palpitação, e não é justo que se esterilise individual e isoladamente cada um que a sonhar nestas cousas de pensamento, lhes der orgulho, temperamento e esplendor - mas pelo contrario se unam em selecção e a dêem aos outros que, da mesma especie, como raros e inferiores que são, esperam ansiosos e sonham nalguma cousa que lhes falta, - do que resulta um procura esthética de permutas: os que nos procuram e os que nós esperamos..."[8].O Modernismo português vivia nessa e dessa inquietação, sedento de novidade e de actualização, de demolição e de reconstrução, de inovação técnica versilibrista e de diferença ideológica, apurando-se nas liberdades vocabulares e na tergiversação sintáctica, assumindo desde logo uma estratégia de choque e provocação. "Orpheu abandonou decisivamente o idioma dos avós e inventou, para nós, a poesia moderna que ainda hoje somos"[9], diz um Eugénio Lisboa. Judith Teixeira andou por lá, mulher consoladora em território de homens feridos pelo mal orfeico da dor da perda e pela pose da arrogância e da superioridade. Sem consciência disso, no vezo oxigenante da despertação das almas adormecidas, quase ninguém viu aquela mulher fulgurante de genialidade assertiva, que partilhou conversas e gostos e amigos e escândalos e dirigiu a cosmopolita revista Europa de eco orfaico. Mas tudo isso é perfeitamente normal: também poucos se aperceberam das consequências e do valor do alarme de Orpheu. Estranho, muito estranho, é o silêncio dela, Judith, e dos profissionais da literatura, que lhe foram perdendo o rasto e cavando o por-dizer.Pessoa chegou ao público, em 1927, por obra da revista Presença. Almada, nesse mesmo ano, sai para Espanha, afirmando emblematicamente que exilada estivera uma geração dentro da própria cultura. Também Judith Teixeira se ausentou do país, em 1927, tudo indica que para Espanha, assim inscrevendo, no sopro da errância, um fim que estava perto no destino da memória próxima e uma ligação clara ao movimento modernista.Quis o destino que o tempo, "esse grande escultor", viesse alterando, laboriosamente, o injusto esquecimento. Este é mais um passo.[1] Virginia Woolf, "Mr Bennet and Mrs Brown", in Collected Essays , vol. I, London, Chatto & Windus, p. 320.[2] Américo António Lindeza Diogo, Modernismo, readymade. Notícias das trincheiras, Braga, Cadernos do Povo, 1997, p. 43.[3] Cf. Malcolm Bradbury e Janes McFarlane, Modernism. A Guide to European Literature (1890-1930), London, Penguin Books, 1991, nomeadamente o capítulo "The cities of Modernism" (pp. 96-104), assinado por Bradbury.[4] Osvaldo Silvestre, "Modernismo em Portugal", in Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, vol. 3, Lisboa, Verbo, col. 842.[5] Sílvio Castro (dir.), História da Literatura Brasileira, vol. 3, Lisboa, Alfa, 2000, pp. 84-85 (Cap. 41, "Modernismo brasileiro e Modernismo português", do mesmo Sílvio Castro).[6] Cf. Sandra Bagno, "Il futurismo a Goa e la 'Revista da Índia' ", in Rosa dos Ventos - Atti del convegno 'Trenta anni di culture di lingua portoghese a Padova e a Venezia' , Pádua, Univ. di Padova, 1994, pp. 89-102; id., "O futurismo libertário na Índia Portuguesa", in JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias , Lisboa, 26 de Abril de 1995, pp. 28-29; Sílvio Castro, op. cit., pp. 86-87.[7] Sobre Paulino Dias, veja-se a informação contida em Eugénio Lisboa (coord.), Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, vol. III, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1994, pp. 149-150:" DIAS, Paulino (N. Santa Cruz, Goa, 1874 - m. Nova Goa, 1919). Poeta iconoclasta, pintor, músico e cientista, foi professor no Liceu Central de Nova Goa. Diplomado em Medicina, dedicou-se sobretudo à aplicação industrial das ciências. Usou o pseudónimo hindu de Pitri Das (Escravo do Amor).De origem indiana, este autor considerava-se como um dos descendentes dos Drávidas, o que muito contribuiu para a sua ligação com a cultura indiana e para o profundo conhecimento que possuía da sua literatura. São exemplos disso o poema Indra, o poema dramatizado Nirvana e a peça Os Párias. Mas não descurou, na sua curta vida, a literatura europeia, que muito o influenciou, sobretudo os movimentos fin-de-siècle, decadentismo e realismo. O seu livro A Lira da Ciência, 1896, é aquela em que mais se reflecte a influência de autores portugueses, especialmente de Herculano e Junqueiro. A sua obra carece de unidade artística e filosófica, pois que se encontra dispersa numa estética científica aliada a um idealismo regenerador e reformista, contra a injustiça do sistema das castas. Deixou volumes inéditos em francês, inglês e português. Entre 1909 e 1910 dirigiu o mensário ilustrado Revista Moderna. Pertenceu ao grande movimento indianista que, após a proclamação da República, viria a conquistar um lugar ao sol na burocracia e nas profissões intelectuais. Colaborou na Revista da Índia e em A Luz do Oriente.Obras principais: Vasco da Gama, poemeto, 1898; Visnhulal, 1919; No País de Súria, 1935 (edição póstuma); A Deusa do Bronze ." O carácter polimórfico desta figura cultural está ligada, por certo, ao espírito moderno, quanto mais não fosse por esse desdobramento funcional e por esse modo marinettiano de afirmação em 1913, que demonstrava, entre outras coisas, ser Paulino Dias um homem atento às vanguardas literárias.[8] Luís de Montalvor, "Introducção", in Orpheu. Revista Trimestral de Literatura., Ano I, nº 1 (Janeiro-Fevereiro-Março), Lisboa, 1915, pp. 5-6. Citado a partir da edição facsimilada da lisboeta Contexto, 2ª edição, 1994.[9] Eugénio Lisboa, Poesia Portuguesa: do 'Orpheu' ao Neo-Realismo, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa-Ministério da Educação e Ciência, 1980, p. 14.

Wednesday, September 20, 2006

o donjuanismo feminino: Régio, Judith e Florbela



José Régio, em paralelo não totalmente desabonatório para Judith Teixeira, defende, no célebre manifesto presencista “Literatura Viva” (10 de Março de 1927), que “todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Bôtto”. Alguma crítica tem visto no asserto (e, quem sabe, se a Poetisa na época!) uma tirada fatal. Admito a possibilidade. Lembro, no entanto, que o negativismo que Régio entrevia não mais era do que emblemático: e foram emblemas menos positivos, de acordo com Régio, Sá de Miranda, António Ferreira, Fidelino de Figueiredo, Junqueiro e Judith. Não estudando ou mais citando Judith Teixeira, Régio é o principal responsável pelo impossível esquecimento da autora de Decadência. Régio, uma vez mais, estava lá, não dizendo talvez a espantosa modernidade de Judith Teixeira, o que não deixa de ser espantoso, tratando-se de Régio.
Florbela Espanca (1894-1930), também vítima do descaso epocal, que não de Judith Teixeira, que a publicou e, como quer Cláudia Pazos Alonso, a influenciou, consegue um impulso importante de José Régio no sentido da visibilidade do seu inovador e predestinado universo poético, assente, no dizer regiano, no "sempre querer mais." De facto, o criador de Poemas de Deus e do Diabo, não obstante a chegada pós-seniana, ao observar que a obra de Florbela deveria ser analisada sob o filtro do donjuanismo feminino que lhe genitaliza toda a obra, criou mais um lugar clássico na nossa literatura.
Em 1923, é publicado o Livro de Soror Saudade, uma colecção de sonetos que, assim, cruza meteoricamente essa década efervescente, à espera então da consagração que o tempo acabou por decidir. Régio, à frente no tempo, estava lá, anunciando. De outro modo esteve com Judith Teixeira… E, no entanto, a regiana palavra promoveu Judith, trazendo-a à memória, à frente no tempo…

Sunday, September 10, 2006

na década de 20: Judith e Tsvetáeva


São multívocos os lindes da ciência do belo e existem jóias lapidadas que parecem moldadas por uma força de influência, que diminui as fronteiras e os desencontros geográficos. As melhores palavras são as dos poetas, porque na poesia dominam ainda o império da ética e a frincha de esperança de que o homem sempre carece.
Junho de 1922 é uma época emblemática para Judith Teixeira e Tsvetáeva: utilizando processos retórico-poéticos diferenciados, ambas as escritoras manifestam nesse mês e nos anos próximos um importante fulgor criativo. Teixeira detém uma sintaxe mais linear e directa, enquanto Tsvetáeva ajoelha à alegria barroca, enfrentando ambas incompreensíveis atritos e perseguições, que não levaram nunca ao servilismo e à sujeição, antes fazendo redobrar os textos de ousadias expressionais e construtivas.
Em Junho de 1922, escreve Judith Teixeira o “escandaloso” poema “A Minha Amante”, criação poetológica sob o influxo de epígrafe homo-autoral, que contém alusões a paraísos artificiais, deflagrando depois, no corpo textual, toda uma ambiência sáfica (“Não entendem dos meus amores contigo”) que muitas consciências parece ter perturbado na década de 20. Em simultâneo, a escritora moscovita, afastada da pátria, constrói um intrincado e fascinante poema que não despreza também os abismos do amor (“Terreno amor, / Fado cruel. / Mãos: luz e sal. / Boca: sangue e breu.”).
Enfrentando totalitarismos e pressões sociais, as duas mulheres cedo souberam que ser-se sujeito é viver-se no “êxtase da procriação”. Assim as palavras finais do poema judithiano, cavando o mistério da poesia. Assim o eco e as ruínas produtivas de il miglior fabro… Como, aliás, se vê no tsvetáeviano poema que apresento em passo final, com tradução de Augusto de Campos:
NEREIDA
Nereida! Onda!
Ela. Eu. Nós dois.
Nada além de
Onda ou náiade.

Teu nome, tumba,
Reconheço, onde for,
Na fé - o altar, no altar - a cruz.
O terceiro, no amor.

Saturday, July 29, 2006

Judith Teixeira e Gustav Klimt



“Decadência”, esse livro debutante de Judith Teixeira, se titularmente parece preso ao epigonismo decadentista – e lembro que, como o diz Calinescu, o Decadentismo é uma das faces da modernidade -, contém em si virtuosismos que permitem aproximá-lo do Modernismo, seja pelo vezo sáfico, seja ainda pelo dialogismo com as artes plásticas, não sendo despicienda ainda a sugestão surrealista que perpassa em alguns desses poemas. Lembro, por exemplo, o poema “A Estátua”, com a nota de ineditismo erótico e de ousadia expressional.
De facto, tal estesia perante o corpo feminino que o sujeito poético manifesta, se, por um lado, convoca as mulheres esculturais de um Klimt (e lembro obras suas como “O Teatro de Taormina” (1886-1888), “A Escultura” (1896), “Nuda Veritas” (1899), “Judith I” (1901), “Judith II” (1909)) e o conexo deslumbramento pelo narcisismo lésbico, universo a que o mesmo Klimt (1862-1918) também aderiu (uerbi gratia, com “Serpentes de Água-II” (1904-1907)), não deixa ainda de ser verdade que nessa obsidência se tipifica uma indenegável e modernista estratégia da ruptura. Aliás, a interactividade da obra literária judithiana com as artes plásticas, no bom sentido dos melhores modernistas, será uma constância ( poemas “Por Quê?” e “Liberta”, ambos de Decadência, são exemplo suficiente), tendo a própria poetisa sido retratada por Carlos Porfírio (1922 ou 1923) e por Guilherme Filipe (1926), dois pintores de manifesta actualidade epocal.
A vertente homoerótica, projectada ou vivenciada pela poetisa, é, na sua constância sem exclusivismo, uma característica não despicienda à época – e relembro que falamos de 1923 –, transformando-se, nesse indefectível arrojo contra as vozes da turba escandalizada, em condição de originalidade poética sem sujeição. E é assim, de novo no rasto de Klimt, cuja obra Judith Teixeira parece ter conhecido e interiorizado, que encontramos no poema “Perfis Decadentes” uma intensa cena de deflagração lésbica do amor que a poetisa poderia perfeitamente ter ido “beber” à já mencionada “Serpentes de Água II” do pintor austríaco, obra que retrata, segundo Gilles Néret, “um mundo narcisista povoado de lésbicas que se enrolam em espirais nas correntes, feito de sonhos aquáticos”.
Se, do ponto de vista temático, as semelhanças são iniludíveis, não deixa ainda de ser verdade que estilematicamente há traços afins que permitem afirmar haver relações de intertextualidade entre os dois autores e as duas obras citadas: os vitrais judithianos serão, afinal, a linfa klimtiana; as algas multicolores e coruscantes do pintor são transformadas por Judith “em listas faiscantes, / sobre as sedas orientais / de cores luxuriantes”; as rotas aquáticas em espiral da obra plástica são agora “nuvens de incenso” ( e olhe-se o desafio!) e “as ondas vermelhas do cetim”; os corpos oblongos e estilizados do pintor Gustav são em Judith longos, “esguios, estáticos, /...corpos esculpidos em marfim”; os klimtianos rostos de mulher, misto de frigidez e efervescência, são pares dos judithianos “perfis esfíngicos, / e cálidos” que estremecem “na ânsia duma beleza pressentida, / dolorosamente pálidos!”; os compridos braços de dedos longilíneos das mulheres narcísicas do artista de Baumgarten (Viena) estão também presentes “nos braços longos e finos” das criações da mulher-poeta viseense; o halo irreal ou surreal que recobre o conjunto plástico de tonalidade onírica é equipolente da atmosfera de sonho que conquista o centro do poema através daqueles “corpos subtilizados, / femininos, / entre mil cintilações / irreais”; e, por fim, uma mesma dimensão de tragédia e de revolta decadentista-modernista na deflagração amorosa, citando eu o exuberante exemplo “E morderam-se as bocas abrasadas, / em contorções de fúria, en- sanguentadas!”.
Tragédia decadentista e coragem modernista, eis o que se colhe desta interacção textual. Judith Teixeira, influenciada pelas artes em geral e pelas artes plásticas em particular, desde o seu primeiro livro de poesia, de que citei exemplos evocativos, prova obedecer ao preceito de Georges Bataille segundo o qual a arte autêntica é forçosamente prometeica. A transgressão e o voo livre pelos interditos faziam de Judith Teixeira, desde 1923, um caso raro de afirmação de um lugar poético original e sem sujeição. Mas, como sempre acontece, estar com os tempos modernos era ainda demasiadamente cedo para que a sua inscrição literária se viesse a fazer em época de fundamentalismo misógino e de gradual fechamento político. E, como o diria um Gil de Carvalho, já no último lustro de Novecentos, ela era um misto de Florbela Espanca e de Irene Lisboa, sendo, por isso, de lamentar tão grande silêncio dos escoliastas literários. Mas não de todos...

Tuesday, July 25, 2006

ainda sobre a moral

Que o corpo vos seja limpo, caros leitores. E que a centelha de fogo, que brilha sobre o céu da cidade, ilumine as mentes vãs, esvaziadas, sabe-se, do respeito pelo outro que se assume. Eu não quero nada mais suave. Antes desejo o tempo da limpidez mental, dieta impoluta adscrita por ventos de Harvard e pela filosofia pragmática que decorre da vida quotidiana.
Este é o meu corpo exposto na inscrição do texto. Aquele amigo, que outro amigo ama ou deseja, é também amigo meu na diferença igual que não vejo. Que me importa a diferença que cada dia se renova, se eu sou eu e o outro é o outro no respeito que somos. Cruzo a vida sem fobia com a amiga que abraço porque assim sou. E se não, por que não os mesmos amigos e amigas, sem tique ou etiqueta?
Marcho contra a hipocrisia e a fobia que fielmente crêem no caminho solitário do “bom amante”, como se o corpo fosse dominável pelos fungos das gavetas apodrecidas! Nada pode ninguém, se o corpo se levanta e escolhe o caminho.
Um fulgurante António Sérgio, em ensaio parisiense datado de 1928, reconhece que o amor “é mais forte do que nós supomos”, devendo sentir-se “sob a forma luminosa da inteligência, ao calor fulgente da compreensão.” Eis, pois, um preceito que não deve ser esquecido, nomeadamente por aqueles em exercício cultural de investidura pública. Fora do espaço isegórico da “solidariedade vivida” (Urbano Tavares Rodrigues), já só resta um negro terreiro de impreparação e de incompetência…
A perfídia de quaisquer actos censórios desinscreve e deseduca. Inscreve e educa quem vai lembrando, como uma lição contínua, o elegante “Preface” de Oscar Wilde a “The Picture of Dorian Gray” de que extraio o excerto que cito: “Those who find ugly meanings in beautiful things are corrupt without being charming. This is a fault.”
A cruzada moralista lisbonense que inundou a década de 20 do século passado lançou para o fogo inquisitorial autores como António Botto, Judith Teixeira ou Raul Leal, apodados, em conjunto, de autores de “literatura dissolvente”. Em defesa da liberdade criativa insurgiu-se, por exemplo, um Fernando Pessoa, que litigou brilhantemente com o persistente Álvaro Maia, assanhado polemista e guardião da “boa moral”.
Arte do seu tempo contra a tradição do passado são, por exemplo, “O Banhista” de Cézanne (c. 1885), a impressão em gelatina e sais de prata das fotografias que captam virtualmente o movimento do corpo de Marey (?, c. 1890-1900), “A Semente de Areoi” (1892) de Gauguin, a “Madonna” (1895-1902) de Munch, a “Rapariga com Cabelo Negro” (1911) de Schiele, “Fränzi Reclinada” (1910) de Heckel, “Banhistas que atiram Juncos” (1909-1910) de Kirchner, “A Dança” (1909) de Matisse, “O Assassino em Perigo” (1926) de Magritte, “Nu na Casa de Banho” (1932) de Bonnard, “Pin-up” (1961) de Hamilton ou “Romance Familiar” (1993) de Charles Ray. E, no entanto, é evidente que a fulgurância destas obras dimana da nudez do corpo de homens e de mulheres e não é lícito encarar-se a sua dilucidação com o cadinho da suavidade. Nem penso que alguém responsável o tenha feito.
Em cada cidade há sempre um Álvaro Maia à espreita. Com estrondo, as primeiras palavras já dizem tudo. Em Viseu, se a pergunta era mais do que retórica, afirmo que as pessoas reagem com indignação a actos censórios e diminuidores das liberdades artísticas. Um museu, até etimologicamente, deve ser um lugar interactivo de multímodas artes. De liberdade, de direito à palavra, de direito à diferença.
Assim não sendo, há um caminho que quem com poder deve traçar. Passam quase cem anos sobre a vergonha da perseguição à chamada “literatura de Sodoma”. Nesse abismo persecutório, uma mulher de Viseu, a poetisa Judith Teixeira, sofreu digna e superiormente os golpes da intolerância.
Não faltando a coragem, corte-se o mal e a raiz. Espero, entretanto, não pensar por muito mais tempo naquele poema de uma mulher afegã, que Sayd Bahodine Majrouh resgatou do silêncio, e que aplico à circunstância: “Tenho na mão uma flor que murcha / Não sei a quem a dar nesta terra estrangeira”.




Friday, July 21, 2006

Judith Teixeira: uma poetisa de Viseu no Modernismo português

Que ninguém fale contra este estranho e esquecido canto. Ritmo selvagem que é, vão estas palavras do fragor do fogo embater no impossível esquecimento. Afinal, que país somos e que literatura queremos, se assim ocultamos uma Judith Teixeira, mulher modernista, misto de Florbela Espanca e Irene Lisboa, com laivos esteticistas à Mário de Sá-Carneiro? Quantas mulheres assim, nas páginas de história literária, que a tornem mesmo deslembrada dos seus mais próximos e dos burocratas da cultura?
Com o pretexto dos oitenta anos que passam sobre o início da colaboração de Judith Teixeira (1880-1959) com a revista Contemporânea, é o momento de afirmar o injusto esquecimento a que tem estado votada a singularíssima mulher-poeta viseense. Afinal, trata-se da única mulher no modernismo português, com ligações documentáveis ao ultraísmo espanhol.
Sinceramente penso que Judith Teixeira - a mulher-cometa que, devedora do decadentismo epigonal e da vertigem modernista cruzou a década de vinte - merece um lugar de razoável visibilidade na nossa literatura, não obstante o estranhíssimo silêncio com que tem sido contemplada pela grande maioria dos historiadores e estudiosos da "coisa literária".
A actividade poética de Judith Teixeira, e não cessam aí os seus méritos, encerra a revelação, a sabedoria e, obviamente, o amor, características que, aliás, conduzem ao conhecimento do ser original. Dessa voragem autognósica, que é também iluminação do ser e poetização subjectiva do ser, destaca-se uma original e interactiva apropriação dos kierkegaardianos estádios imediatos de Eros , podendo um mesmo poema apresentar três estádios que vão da contemplação melancólica à consumação desviante. E o que ressuma desse vórtice poético é sempre, com o acúmulo de vozes autoritárias que cada vez mais despontam, a certeza de se estar perante uma voz feminina originalmente viva.
Judith Teixeira é uma voz lírica que é um dos grandes poetas do amor do nosso século. Marginalizada por muitos, ela cumpriu uma expiação que só os eleitos ousam sofrer e superar. Mas, afinal, não é da margem que se vê melhor? Não procura o Amor, como codiciosamente o notou Kierkegaard , um recanto isolado?
É o momento dos dias limpos para uma voz sonegada e esquecida. Judith Teixeira, lenta e seguramente, vai emergindo pela força de múltiplas vozes que têm vindo a privar com o fogo das palavras descomprometidas.
Muito tempo passou sobre aquele grito valorativo e contristado de Aquilino Ribeiro contra a intolerância. Judith, sujeito sem sujeição, que muito antes "dos nossos dias", como diria um Eugénio de Andrade, se deu ao corpo e, por via disso, à voz do silêncio.
Este é, por isso, mais um passo contra a obscuridade que reputo da mais vincada importância. Um passo ao lado de outros passos, à espera de novas incisões.
Os de fora da literatura dirão que este é um excurso de arqueologia literária. Afirmando e infirmando, sem perder de vista a munificiência do labor intelectual que sempre comporta dissentimentos ecdóticos e hermenêuticos, bem como indecisões e dúvidas derivadas de lacunas e de impossibilidades investigativas, é certo que a minha perquirição judithiana permite já o protaimento da amplitude da acção literária da mulher-poeta em quem um Albino Forjaz Sampaio divisava já a originalidade e o interesse artístico. Não se limita a sua acção literária à década de vinte. O conhecimento textual da obra de Judith Teixeira permite agora, com os materiais por mim carreados, a fixação do terminus a quo no ano de 1918 e o do terminus ad quem no ano de 1938, alargando para vinte anos o campo de análise dos ainda poucos mas determinados escoliastas judithianos. Sei, no entanto, como o diz a poetisa, que “Há-de chegar o dia / em que a [...] tristeza há-de acabar...”. Vai chegando em cada dia que passa.
De Judith Teixeira e dos seus oceanos rubros de sensualidade, um longo caminho trilhado ao sabor do sentimento, ressuma uma notável originalidade e a indiscutível força afirmativa de uma mulher que desafiava quaisquer estereótipos associados ao mundo feminino, sem o mais leve assomo de sexismo ou de reinvindicação parler femme , o que parece um mergulho parcial nos quesitos futuristas, sempre infensos ao feminismo e à debilidade. Tal presença do eu assertivo, que se estende a toda obra da escritora viseense, tem principalmente lugar na década de vinte do século que, de acordo com Norbert Elias, assistiu, com o acesso das mulheres a uma identidade própria, à maior revolução da história da sociedades ocidentais.
A permanência de um forte e instante eu na poetisa de Decadência exemplifica um espírito que, não obstante o dominante subtrato decadentista e o, por vezes, exuberante modernismo, percorre a cultura portuguesa e que se revela naquela cosmovisão peculiar com raízes no saudosismo, no solitarismo vivencial e no inquietismo. António Manuel Couto Viana, referindo-se ao lirismo de Judith Teixeira, defende tratar-se de uma "poesia nocturna, dionisíaca, que poucas vezes a alegria solar veste de luz."
Judith Teixeira, forte eu-assertivo, não é uma identidade dominada, porque, afinal, para um espírito de livre-exame, ser sujeito não poderia ser sujeitar-se. E esse é o voo da condição humana em busca da transcendência e da liberdade.
Voo final que afirma que o dissídio vivencial judithiano e o conexo alor lírico desrealizante são uma marca infungível na literatura portuguesa e um corte exicial com o esquecimento, como o parece dizer, desde há muito, este passo judithiano modulado por mim em palavra final:


Minha alma ergueu-se para além de ti...
Tive a ânsia de mais alto
-abri as asas ,parti!

Outubro
1922

Tuesday, July 04, 2006

Judith Teixeira em "José e os outros" de José-Augusto França



José e os Outros. Almada e Pessoa (romance dos anos 20) é uma narrativa de José-Augusto França, vinda a lume em Abril último, com a chancela (habitual, aliás) da Editorial Presença.
Não podendo dizer que estamos perante um grande romance, parecendo-me até que a espantosa informação do Autor tolhe a eficácia do texto, direi que a criação do estruturado intelectual é um importante feito paraliterário. Sem denegação do lume, que existe descontinuadamente, outro fulgor mais importa: conhecer a década de vinte lisboeta obrigará, doravante, a que consideremos esta publicação como inquestionável elemento de leitura. E outros e muito importantes existem na bibliografia de França.
Dentro do romance cruzam lugares (o Chiado, o Rossio, a Brasileira, o Bristol, o São Carlos, o Museu das Janelas Verdes…) e personagens reconhecíveis (Almada, Pessoa, Stuart, Barradas, Pacheco…). E existem ainda alusões que são marcos geodésicos de uma época fulgurante e contraditória.
Se é explicável que Thereza Leitão de Barros não tenha incluído Judith Teixeira na obra Escritoras de Portugal (Génio feminino revelado na Literatura Portuguesa), ensaio publicado em 1924 e muito em cima do êxito judithiano, o contrário penso relativamente a algumas obras de referência (dicionários de…) sobre mulheres intelectuais saídas nos últimos tempos, que, estranhamente, têm vindo a esquecer a poetisa aparatosamente.
O romance de José-Augusto França, referindo-se a Judith Teixeira, fala da sua “poesia sensual, ‘amorosa’, ‘pagã’”, que chocava com as “más intenções machistas”. Mais à frente, destaca-se a atenção da revista Europa a tudo o que acontecia de novo em arte.
Funda, a memória cava…

Thursday, June 22, 2006

"ABC" ou o momento da festa: o rosto popular de Judith Teixeira

Félix Correia, na revista ABC de Rocha Martins, de 21 de Junho de 1923, propõe-se "oferecer ás nossas leitoras, para os cravos de papel dos seus mangericos lindas quadras que as mãos gentis dalgumas das melhores poetisas portuguesas graciosamente lhes quizeram oferecer, por nosso intermedio". Apresentando cada uma das "melhores poetisas", Félix Correia convoca o nome da poetisa viseense e, antes de transcrever a quadra judithiana, produz o seguinte enunciado: "Dona Judith Teixeira cujo ultimo livro Castelo de Sombras é um reflexo da tempestade sentimental que a agita, deu-nos esta quadra onde passa a dôce sensualidade da noite de S. João, com cravos vermelhos a encherem de sangue os mangericos e comunhões francas dos sentidos a perturbarem as almas das cachopas". Mais se acrescente que as poetisas nomeadas e que responderam ao apelo foram, para além de Judith Teixeira, Maria Madalena Trigueiros de Martel Patrício, Fernanda de Castro, Maria de Carvalho, Oliva Guerra, Beatriz Delgado e Maria Leonor Reis.
De acordo com os ritos sazonais e com o Zeitgeist de então – a década de vinte é uma época literariamente multímoda e contraditória -, Judith Teixeira mergulha no espírito do povo, derrogando pela acção a notas meramente decadentista ou modernistas, e responde à provocação de Félix Correia, oferecendo às leitoras da revista ABC , em véspera de festejos de S. João, a quadra "para os cravos de papel dos seus manjericos" que a seguir se transcreve:

Na noite de S. João,
Ao som de alegres cantigas,
Anda o luar pelas fontes
A beijar as raparigas.

Esta adesão, ainda que pontual, a uma modalidade literária de ressaibos populares e românticos, fora, portanto, dos habituais requintamento, individualismo, sumptuarismo e esteticismo, assinala uma evasão onírica e espacial, dentro do espírito fantástico da libação dissipatória e orgiástica ("Anda o luar pelas fontes / A beijar as raparigas.") e da inserção numa certa recuperação medievalista, se se pensar no peso literário da palavra 'fonte' e na simplicidade evocativa das composições dos cancioneiros medievais. Ao mesmo tempo, pese embora tratar-se de um pequeno texto, resulta evidente a carga erótica que a quadra transporta - o que é, como se tem dito, uma permanência na criação judithiana e uma abertura consentida para a dominante etapa melancólica -, assim se construindo, nessa concisão, uma literatura armadilhada pelo fogo de Eros: o quadro inscreve-se no euforismo nocturno do festejo sanjoanino e na moldura musical da alegria libatória, circunstância propícia à convocação do objecto erótico "raparigas" - das palavras mais belas, diria o insuspeito Eugénio de Andrade - e na sugestão da sujeição amorosa transportada pelos saborosos e evocativos vocábulos "fontes", de tão entranhada simbologia medieval, e "luar", simbolizando este o princípio feminino e a renovação, abrindo-se assim várias possibilidades interpretativas, nomeadamente as de incidência sáfica.
Esta quadra judithiana, no rasto da simbologia de encontro amoroso que a palavra "fonte" assume na literatura medieval, é também um encontro com a festa e com a diferença - um passo necessário que não teme a nova experiência estética, que não teme a modernidade.


Friday, June 09, 2006

ligações fecundas: Aquilino Ribeiro & Judith Teixeira


Ligação fecunda anuncio de Aquilino Ribeiro, com cinco anos menos do que Judith Teixeira, que na cidade de Viseu nascera naquele ano de 1880. O futuro “Mestre da Nave” veria a luz do dia volvido um lustro, por 1885, na fagueira e rigorosa Tabosa (ou melhor, Carregal). E será esse espaço de tempo distanciador, mínimo à escala cósmica e muitas vezes importante nas relações humanas, que unirá como que por encanto este par literário da nossa cultura para uma vida diferente de próxima longevidade. Pense-se, nestes encontros e desencontros, que Aquilino morre com incompletos 78 anos (1963) e que Judith Teixeira falecera com 79 anos completos (1959).
Abandono Aquilino e pego em Judith, poetisa viseense de arrojo indenegável e, seguramente, um dos casos mais interessantes e obscuros da literatura feminina do nosso século XX . Ei-la que nasce em Viseu, ao tempo em que Simões Dias se dedicava como poucos à nossa cidade, em que as famílias viseenses (as letradas, claro) consumiam o seu tempo na leitura do D. Jaime de Tomás Ribeiro, em que (por exemplo) o médico benemérito Duarte de Almeida Loureiro e Vasconcelos encantava a cidade com a sua bondade e dedicação, em que muitos símbolos da nossa urbe procuravam ainda o seu lugar (como era diferente a zona do Rossio!), em que o virtuoso José Ribeiro de Carvalho e Silva regressava à cidade, em que o Padre Moura acabara de construir um órgão portátil (para celebrar a poetisa?), em que se preparava a inauguração da Praça 2 de Maio, em que...
Judith segue para Lisboa, onde viverá atribuladamente. Aquilino é o que se sabe: enquanto rebenta, em 1907, uma bomba no seu quarto, a poetisa é perfilhada por Francisco dos Reis Ramos, assim colocando alguma ordem na sua vida difícil. Em 1913, é dissolvido o casamento da mulher intelectual com Levy Azancot; a ironia do destino permite que, nesse mesmo ano, Aquilino Ribeiro case na Alemanha com Grete Tiedemann – e não são de estranhar, neste conjunto de dados e incidências, os apelidos estrangeiros dos felizes e infelizes consortes. Em 1914, o escritor vê nascer o primeiro filho, Aníbal Aquilino Ribeiro; no mesmo ano, Judith volta a casar, desta vez com o advogado e industrial Álvaro Virgílio de Franco Teixeira. Em 1922, Judith Teixeira colabora visivelmente na famosa revista Contemporânea, deixando alguns poemas numa publicação periódica “feita expressamente para gente civilizada” e “feita expressamente para civilizar gente”, e tida por muitos como um dos expoentes do nosso Modernismo; nesse mesmo ano, Aquilino, que era já um autor reconhecido e admirado (publicara Jardim das Tormentas, A Via Sinuosa, Terras do Demo e Filhas de Babilónia), conhece dias de perfeita glória intelectual – afinal, publicara a Recreação Periódica do Cavaleiro de Oliveira, o livro de contos Estrada de Santiago e tornara pública a conferência “Anatole France”.
Chega 1923 e sai a lume o primeiro livro de Judith Teixeira, Decadência, que conhece desde logo o aval de alguma imprensa da época. No entanto, as garras da intolerância cedo se manifestam pela boca de Pedro Teotónio Pereira e pelo jornal a quem concede uma entrevista. Instado sobre o que pretendia fazer a sua Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, de intenção repressiva e preventiva (?), Teotónio Pereira não tem dúvidas: "Fiscalizar as livrarias e meter também na ordem os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais como este, aquele e aqueloutro ." A edição perde-se nas malhas inquisitoriais. Da apreensão ao fogo vai um instante. O Governo Civil de Lisboa solta os mastins. Para lá de Decadência , são arrestadas para as cinzas a Sodoma Divinizada , de Raúl Leal, e as Canções , de António Botto. Não muito tempo depois, proíbe-se a peça Mar Alto , de António Ferro. Tudo em nome da moralidade em arte.
Aqui entra Aquilino, com a sua nobre justiça. "Que é moral ou imoral em arte?" , clamou bem alto, à época, o nosso escritor,referindo-se ao acirramento das autoridades. E mais disse nesse ano de 1923, reverberando frontalmente a censura que apreendeu o “livro da srª. D. Judith Teixeira, que é uma poetisa de valor”. Tais palavras, ditas assim desse modo, constituem um dos mais importantes actos judicativos sobre o lugar poético da escritora viseense.
É uma relação produtiva aquele que une os dois artistas. No bulício do escândalo e na aceitável curiosidade jornalística, Judith Teixeira é surpreendida a ler o recente livro de Aquilino Ribeiro Estrada de Santiago. Em entrevista a José Dias Sancho, a escritora refere-se, nesse mesmo ano de 1923, ao autor de Terras do Demo como um daqueles que “seduzem com sua Arte polícroma, intensa, luminosa.”
Em 1925, Judith Teixeira dirige na capital a revista Europa e nela, nos únicos três números saídos nesse mesmo ano, não deixa de estar presente o nome de Aquilino Ribeiro, que colabora no terceiro número.
Implicado na revolta contra a Ditadura Militar, Aquilino foge, em 1927, para a Beira Alta e daqui vai para França; Judith, que publicara Satânia, parece ter-se retirado para Espanha, finalizando, ao que se sabe, a parte mais visível da sua produção literária.
Em 1959, morrem Judith Teixeira, António Botto e Lasso de la Vega, figuras que conviveram entre si na década de 20. E muitas vezes o fizeram em casa da poetisa. Então, no momento da morte da escritora viseense, Aquilino é perseguido por via da publicação do romance apreendido Quando os Lobos Uivam. Nem cinco anos passados morreria Aquilino.
Da incompletude da vida, resta este halo relacional de produtividade e de encontros não desprezíveis. Desse fogo vai nascendo ainda uma figura não despicienda do nosso Modernismo. Basta olhar para a cidade e para a voz insinuada da velha Safo.

Friday, June 02, 2006

Judith Teixeira em "Terras de Portugal"



Terras de Portugal (Grande Revista Ilustrada) é uma publicação periódica dirigida por Gomes Barbosa e editada por Álvaro de Andrade entre os anos de 1925 e 1935, num total de 52 números. Apresentando valiosa colaboração literária, o magazine lisboeta, que manifesta evidente interacção com a judithiana Europa, é uma importante exemplificação da irradiante "literatura feminina" - designação a ser revista, pois ninguém fala de "literatura masculina"... - invasora da década de vinte, que é uma época curiosa, fulgurante, efémera e intervalar, com as suas múltiplas digladiações periodológicas e os encantos defluentes de uma geração poética que sucedia à proclamação da mensagem renovadora de Orpheu .
A revista nº 14 de 1828, na coluna agora descomplexada "Poetas de Portugal", contém os poemas "Natal" de Beatriz Delgado, "Soneto" de Branca de Gonta Colaço, "Sombra e Clarão" de Eugénio de Castro e "O Poemeto das Sombras" de Judith Teixeira.
Bem dentro dos estilemas judithianos, este poemeto, subsumindo-se na escassez física titular de pequeno poema, inscreve-se desde logo no tom cinéreo do dionisíaco. Acumulando notas para um cenário agreste e ominoso - a ventania ruge, as árvores desfolhadas gemem, o sino estridula à meia-noite...-, a comparação, como elemento estilístico-retórico predominante nas duas primeiras estrofes, instaura os pares 'arvores gemendo como almas na agonia' e 'a voz do sino como uma boca cavernosa’ que fornecem ao poema uma tonalidade angustiante.
A terceira estrofe segue e adensa o tom sufocante de sofrimento, particularizando o crescendo emocional pela liberdade sintáctica e pela diminuição métrica. De facto, esta sétima voraz sucede a duas estrofes, uma quadra e uma quintilha, nas quais, ao gosto decadentista, o adjectivo sugestivo e pleno de emoção reganhava o centro através de um ritmo predominantemente binário, deixando transparecer na criação ambiencial uma força próxima e correlata das artes plásticas. Ser conflituante por natureza, o sujeito poético decadentista, qual herói perfeito, sofre com a insuficiência dos outros e compraz-se no seu isolamento social que mais e melhor vê. Afinal, "Ha lares em festa - / e fóme pelos caminhos / da desgraça.". Esta ironia trágica expressa uma presença mais vincada do eu poético através daquele "minha amargura", que indica, neste contexto, uma emotividade lírica rente ao pensar-sentir do emissor poemático.
De seguida, a quarta estância inicia-se com a imprecação "Meu Deus!", abrindo-se por aí o debate sobre a construção divina que o sujeito lírico entrevê. Transcendente ao homem e ao mundo, Deus irrompe do poema de Judith Teixeira como o ipsum esse subsistens, de acordo com a tradição metafísica do imanentismo. Nomeando-O sem que tal obstrua a Sua transcendentalidade, o acto imprecativo poemático é uma súplica ao divino que afirma a impotência humana para dar solução a problemas cruciantes a que um Deus absconditus assiste impávido. Interrogando duas vezes, numa prece súplice, as perplexidades formuladas não consentem respostas, assim permanecendo na sua pureza etiológica.
Mas mais diz este passo do poema. Por exemplo, que se trata de uma criação inserível no âmbito das temáticas do religioso, como o comprovam, mais uma vez, os dois versos finais dessa quintilha: "Por que é que nesta noite em que nasceu Jesus / o Ceu, não se sorri, cheio de luz?". José Régio e Alberto de Serpa afirmam, sem que tal directamente se relacionasse com Judith Teixeira, que quase "todos os melhores poetas portugueses se voltaram, uma que outra vez, para Deus". Assim aconteceu com a poetisa viseense, que, percorrendo os caminhos do Divino e do mistério do Natal na composição em análise, cumpriu ainda o religiosismo poético de convocar para o seu mundo as figuras de Nossa Senhora, de Santa Maria Madalena ou os passos da Paixão de Jesus Cristo. Nenhuma antologia religiosa de poesia portuguesa, que eu conheça, soube integrar em si algum exemplar judithiano, o que, podendo não ser abonatório para a autora, mostra também a actualidade do preceito de Ruy Belo de haver "tanta gente esquecida, tanto trabalho ignorado..." à espera de uma mais sábia recolocação.
A quadra subsequente adensa o dolorismo invasor com a notação do entediamento subjectivista do sujeito lírico ("Exalo-me em tédio!"), desenvolvendo a estrofe seguinte, a última, a toada decadentista persistente, seja na presença daquele "mundo de engano" fornecido pelo envolvimento do corpo num tecido luxuoso ("Sobre a sêda vermelha que me envolve"), seja no carácter nocturno e espectral do fechamento poemático ("e lá fóra batalham peito a peito, / revolvendo as trevas ululando, / longos fantasmas / de negras silhuetas!"). E não será despicienda para a compreensão da "forja" judithiana a presença opositiva e criativa da intensidade interior, sugerida pelo vermelho da seda, a par da passividade do tédio, inscrita pelas tonalidades violetas da luz e pelo cinerário das trevas. No fundo, a obra de Judith Teixeira manifesta continuadamente essa tensão, que, vistas bem as coisas, é constitutiva de uma idiossincrasia poética singular.
A revista nº 26 de 1930 (Ano VI), na senda feminina assinalada, publica textos de Teresa Leitão de Barros, Júlia Lopes de Almeida, Virgínia Victorino, Laura Chaves, Oliva Guerra, Emília de Sousa Costa, Maria Amélia Teixeira, Maria Assunção da Silva Miriam, Rosa Silvestre... mas mais nada se diz da silenciosa Judith Teixeira.

Sunday, May 21, 2006

Régio e Judith Teixeira: um encontro & uma brasa ardente


00. Conduzindo às chamas, as letras dizem, no sentido de Deleuze, não haver lugar para o medo nem para a esperança. A confusão instaurada desde cedo na cidade dos homens, com os jogos mediáticos e a sede de centralidade, fazem dos objectos impressos rostos sem face que conjugam o esquecimento com a “desmemória”. Ilude-se o escriba contra o fascínio ainda aurático dos dizeres que já não dizem. O arco hermenêutico dos dias sobreviventes trazem só o sal da morte e o sussurro burocrático. Ao fim da escuta, muitos dos melhores actos poéticos são ágrafos e brancos, sem borrão de tinta escurecida. No entanto, encontros e desencontros existem que cortam a algaravia citadina e são matéria legível. Ao encontro, pois, do espaço cego e do negativo-produtivo da desintegração.

0. Judith Teixeira nasceu em 1880, Régio em 1901 (1). Este lapso temporal de duas décadas, no entanto, nada significa em termos de actividade literária, até porque essa aparente décalage, no que aos dois poetas respeita, se estreita um tanto, se pensarmos nas primícias literárias de ambos.

1. Em primeiro lugar, ocupemo-nos de Judith Teixeira. Não conhecendo quaisquer textos seus anteriores a 1918, não custa acreditar nas palavras judithianas que afirmam que desde muito nova ela se sentiu vocacionada para a escrita, tendo, na sua juventude, exercitado essa “urgência de dizer” em composições ainda incipientes. Sabe-se hoje que o seu primeiro (?) texto publicado aparece pelo Jornal da Tarde nesse ano de 1918, com o título “Almas simples (Fé)” (2), um texto praticamente desconhecido mas perfeito exemplar do neo-romantismo lusitanista. Segue-se-lhe, no mesmo periódico, já no ano seguinte, uma outra narrativa breve de título “Lali...”(3), texto sugestivo da predominân- cia decadentista judithiana. Mas não se fica por aí a esquecida e interessante poetisa, colaborando em 1922, com o sonetilho “Fim”, no segundo número da revista Con-temporânea, publicação que se dizia “para novos”, a ela voltando nesse mesmo ano e em 1926, para já não falar do gorado último número em que a poetisa colaboraria com o soneto “Vaticínio” (4). Lembro, de passagem, que esta revista assinalava o fim do dito Primeiro Modernismo, não obstante as diferenças face a “Orpheu” que um Pessoa de imediato tipificou na consabida e valorativa exclamação “que diferença!” (5).
O ano de 1922 foi para Judith Teixeira um período de tirocínio e de preparação para o embate de 1923. E, de facto, tal ano, que é o da publicação do livro de poemas Decadência, não poderá ser dissociado da polémica da “literatura de Sodoma” que invadiu o palco lisboeta. O fundamentalismo conservador e moralista, personificado por um conjunto de jovens integristas chefiados por Pedro Teotónio Pereira, avança e acirra as autoridades no sentido da reacção àquilo a que eles chamavam “literatura dissolvente”. Nessa onda de incompreensão embarcam os responsáveis políticos e militares, que, sem pestanejar, ateiam a fogueira, recriando, nessa patologia ígnea, os velhos autos-de-fé de tão ingrata memória. Sodoma Divinizada de Raul Leal, Canções de António Botto e Decadência de Judith Teixeira são arrestados das livrarias e queimados publicamente junto ao Governo Civil.
Pessoa defende Botto e Leal (6), mas nada diz sobre Judith. Aquilino Ribeiro não só defende a poetisa, como a diz “uma poetisa de valor” (7). Posição semelhante, no jornal A Capital, adopta um António de Monsanto, o qual, para lá de ver na apreensão do livro judithiano um “excesso de zelo”, exalta o “belo espírito de artista” da poetisa e o renovador aspecto gráfico do livro de poemas (8). De resto, só um silêncio comprometido e um número não desprezível de vozes coléricas, que não de leitores.
E, no entanto, esse livro debutante, se titularmente parece preso ao epigonismo de-cadentista – e lembro que, como o diz Calinescu (9), o Decadentismo é uma das faces da modernidade -, contém em si virtuosismos que permitem aproximá-lo do Modernismo, seja pelo vezo sáfico, seja ainda pelo dialogismo com as artes plásticas, não sendo despi- cienda ainda a sugestão surrealista que perpassa em alguns desses poemas. Lembro, por exemplo, o poema “A Estátua”, para que se não perca esta prova de ineditismo erótico e de ousadia expressional judithiana na década de vinte. Diz o texto:

O teu corpo branco e esguio
prendeu todo o meu sentido...
Sonho que pela noite, altas horas,
aqueces o mármore frio
do alvo peito entumecido...

E quantas vezes pela escuridão,
a arder na febre dum delírio,
os olhos roxos como um lírio,
venho espreitar os gestos que eu sonhei...
..................................................................
- Sinto os rumores duma convulsão,
a confessar tudo que eu cismei!
.................................................................
Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
num tormento,
a singular razão dos meus cuidados!
Fevereiro – Noite Luarenta
1922 (10)

De facto, esta estesia perante o corpo feminino que o sujeito poético manifesta, se, por um lado, convoca as mulheres esculturais de um Klimt ( e lembro obras suas como “O Teatro de Taormina” (1886-1888), “A Escultura” (1896), “Nuda Veritas” (1899), “Judith I” (1901), “Judith II” (1909), ...) e o conexo deslumbramento pelo narcisismo lésbico, universo a que o mesmo Klimt (1862-1918) também aderiu (uerbi gratia, com “Serpentes de Água-II” (1904-1907)), não deixa ainda de ser verdade que nessa obsidência se tipifica uma indenegável e modernista estratégia da ruptura. Aliás, a interactividade da obra literária judithiana com as artes plásticas, no bom sentido dos melhores modernistas, será uma constância ( poemas “Por Quê?” e “Liberta”, ambos de Decadência, são exemplo suficiente), tendo a própria poetisa sido retratada por Carlos Porfírio (1922 ou 1923) e por Guilherme Filipe (1926), dois pintores de manifesta actualidade epocal.
Tal vertente homoerótica, projectada ou vivenciada pela poetisa, é, na sua constância sem exclusivismo, uma característica não despicienda à época – e relembro que falamos de 1923 –, transformando-se, nesse indefectível arrojo contra as vozes da turba escandalizada, em condição de originalidade poética sem sujeição. E é assim, de novo no rasto de Klimt, cuja obra Judith Teixeira parece ter conhecido e interiorizado, que encontramos no poema “Perfis Decadentes” uma intensa cena de deflagração lésbica do amor que a poetisa poderia perfeitamente ter ido “beber” à já mencionada “Serpentes de Água II” do pintor austríaco, obra que retrata, segundo Gilles Néret, “um mundo narcisista povoado de lésbicas que se enrolam em espirais nas correntes, feito de sonhos aquáticos”. Diz assim o poema:
Através dos vitrais
ia a luz espreguiçar-se
em listas faiscantes,
sobre as sedas orientais
de cores luxuriantes!

Sons ritmados dolentes,
num sensualismo intenso,
vibram misticismos decadentes
por entre nuvens de incenso...

Longos, esguios, estáticos,
entre as ondas vermelhas do cetim,
dois corpos esculpidos em marfim
soergueram-se nostálgicos,
sonâmbulos e enigmáticos...

Os seus perfis esfíngicos
e cálidos
estremeceram
na ânsia duma beleza pressentida,
dolorosamente pálidos!

Fitaram-se as bocas sensuais!
Os corpos subtilizados,
femininos,
entre mil cintilações
irreais,
enlaçaram-se
nos braços longos e finos!
..................................................................
E morderam-se as bocas abrasadas,
Em contorções de fúria, ensanguentadas! (11)
(...)
Se, do ponto de vista temático, as semelhanças são iniludíveis, não deixa ainda de ser verdade que estilematicamente há traços afins que permitem afirmar haver relações de intertextualidade entre os dois autores e as duas obras citadas: os vitrais judithianos serão, afinal, a linfa klimtiana; as algas multicolores e coruscantes do pintor são transfor-madas por Judith “em listas faiscantes, / sobre as sedas orientais / de cores luxuriantes”; as rotas aquáticas em espiral da obra plástica são agora “nuvens de incenso” (e olhe-se o desafio!) e “as ondas vermelhas do cetim”; os corpos oblongos e estilizados do pintor Gustav são em Judith longos, “esguios, estáticos, /...corpos esculpidos em marfim”; os klimtianos rostos de mulher, misto de frigidez e efervescência, são pares dos judithianos “perfis esfíngicos, / e cálidos” que estremecem “na ânsia duma beleza pressentida, / dolorosamente pálidos!”; os compridos braços de dedos longilíneos das mulheres narcísicas do artista de Baumgarten (Viena) estão também presentes “nos braços longos e finos” das criações da mulher-poeta viseense; o halo irreal ou surreal que recobre o conjunto plástico de tonalidade onírica é equipolente da atmosfera de sonho que conquista o centro do poema através daqueles “corpos subtilizados, / femininos, / entre mil cintilações / irreais”; e, por fim, uma mesma dimensão de tragédia e de revolta decadentista-modernista na deflagração amorosa, citando eu o exuberante exemplo “E morderam-se as bocas abrasadas, / em contorções de fúria, ensanguentadas!”.
Tragédia decadentista e coragem modernista, eis o que se colhe desta interacção textual. Judith Teixeira, influenciada pelas artes em geral e pelas artes plásticas em particular, desde o seu primeiro livro de poesia, de que citei exemplos evocativos, prova obedecer ao preceito de Georges Bataille segundo o qual a arte autêntica é forçosamente prometeica. A transgressão e o voo livre pelos interditos faziam de Judith Teixeira, desde 1923, um caso raro de afirmação de um lugar poético original e sem sujeição. Mas, como sempre acontece, estar com os tempos modernos era ainda demasiadamente cedo para que a sua inscrição literária se viesse a fazer em época de fundamentalismo misógino e de gradual fechamento político. E, como o diria um Gil de Carvalho (12), já no último lustro de Novecentos, ela era um misto de Florbela Espanca e de Irene Lisboa, sendo, por isso, de lamentar tão grande silêncio dos escoliastas literários. Mas não de todos, como veremos à frente...
Não se fica pelo referido o virtuosismo literário de Judith Teixeira. De facto, uma outra voz coeva, que a poetisa portuguesa com toda a certeza desconhecia – e falo de Delmira Agustini (1886-1914), a cultuada pitonisa uruguaia do modernismo hispânico (13) -, manifesta afinidades electivas, poéticas e biográficas, com Judith. Aliás, essa convergência de articulação poética já foi notada por um René Garay (14), que defende que a subversão das imagens consagradas é comum em ambas: o cisne de Delmira nada deve à simbologia do modernismo hispânico glosada pelo seguidores de Ruben Darío, antes se subtilizando em desejo irreprimível no poema “El cisne” do livro Los cálices vacíos (1913), o que, afinal, também acontece com Judith Teixeira nos poemas “Ao Espelho” (“e eu vou pensando, / no cisne branco e mudo / que no espelhante lago adormeceu”) de Decadência ou na composição poética “Ilusão” de Nua. Poemas de Bizâncio (1926), que é, sem dúvida, uma fulgurante exemplificação da capacidade estranhizante das imagens judithianas, com a sua pregnância onírica animada por uma belíssima criatura “esculpida em neve” que tem sobre a nudez jovem do corpo “dois cisnes erectos”. Mas esta atinência é muito mais completa, passando não só pela coincidência biográfica (apodo de sáficas, recurso ao divórcio, colaboração em revistas, rebeldia e insubmissão, silenciamento...), como principalmente por uma “technê” criadora plena de sensualidade e de inferências decadentistas, modernistas e vanguardistas (“Os meus versos não têm escola – são Meus!”, gritará Judith Teixeira, em 1926, na importantíssima conferência De Mim), criando-se no processo estádios eróticos diversos mas interligados entre si pela lei do desejo que é sempre mais imaginação, mais transgressão e mais fantasia.
Nesse mesmo ano de 1923, Judith Teixeira escreveu Castelo de Sombras, livro menos arrojado, de tom vincadamente cinéreo e dessorado, de imediata atracção pela correlação com Castillo Interior ou Tratado de las Moradas (1577) de Santa Teresa de Ávila, não havendo, como poderia parecer, qualquer estratégia de submissão às vozes críticas, até porque as datas dos poemas são coevas das de Decadência. Em 1925, a poetisa dirige a cosmopolita revista Europa, de que se conhecem três números nesse mesmo ano, nela tendo colaborado nomes literários como os de Américo Durão, Aquilino Ribeiro, Carolina Homem Christo, Ferreira de Castro, Florbela Espanca ou Reinaldo Ferreira, sendo ainda de realçar o destaque dado à ilustração, à fotografia e às artes plásticas, com reprodução de obras de Almada Negreiros, Amadeo, Eduardo Viana, Mário Eloy... No ano seguinte, em 1926, publica-se Nua. Poemas de Bizâncio, livro que António Manuel Couto Viana exalta como a melhor e mais moderna criação judithiana. Instala-se de novo a polémica e ARIEL, pseudónimo de Álvaro Maia, sempre ele, refere-se a “versalhadas ignóbeis à Judith Teixeira”. Ainda no calor da refrega, faz publicar a poetisa uma brilhante conferência intitulada De Mim, importante texto para o aclaramento da indenegável inteligência e modernidade da escritora, só espantando que um paratexto literário deste nível permaneça desconhecido de boa parte dos amantes da literatura. Segue-se, já no início de 1927, um livro de novelas intitulado Satânia, e até por aí, pela sugestão titular, é indesmentível a aproximação, fortuita embora, com Delmira Agustini. O rasto de Judith começa a perder-se, farta certamente da restrição isegórica (15) a que tinha sido sujeita e de todos os ecos escandalosos de um jornalismo lateral e de uma crítica literária adepta do mito do “eterno feminino”. Conhecem-se ainda, por finais da década de 30, dois textos de opinião judithianos, um sobre a família, outro sobre o desemprego do espírito, ambos subsumidos já ao conservadorismo, ambos manifestantes de uma límpida e ática escrita.
Mas... quem conhece Judith Teixeira? Encostada a uma época de tradição e de mudança, a notável poetisa vive uma empenhada actividade marginal de transgressão do establishment, sabendo que esse carácter prometeico lhe valeria um longo e comprometido silêncio. Contra essa sanção simbólica, valeu bem a pena uma tão intensa e tão curta vida literária. Assim aconteceu com a uruguaia Delmira Agustini, com a chilena Teresa Wilms Montt (1893-1921) e com a argentina Alfonsina Storni (1892-1938), almas próximas do arrojo judithiano.

2. Mas peguemos em Régio, que desde há tanto espera por nós. José Régio é uma figura referencial da cultura contemporânea e uma das figuras literárias mais importantes do nosso novecentismo, todos o sabem. Avanço quatro nomes maiores e ele lá está: Pessoa, Régio, Vergílio e Eugénio, ainda no activo.
Mas nem sempre assim foi. Régio cumpriu um difícil e atribulado processo formativo. Iniciando-se sob o pseudónimo José Régio com a “Toada de Natal”, de 1921, no semanário A República de Vila do Conde, avançou o poeta com colaborações coimbrãs em 1923 e 1924, em publicações como A Revolta e Bizâncio. Para trás ficavam já os precoces tentames poéticos (Violetas, com doze ou treze anos) e prosásticos da adolescência, bem como a anterior pseudonímia de que é exemplo a subscrição Vénus, no poema “Amor” vindo a lume no jornal O Democrático de Vila do Conde, pelo ano de 1915. Ficavam ainda para trás as já mais maduras colaborações na publicação quinzenal Alma Nova de Espinho e nas portuenses A Crisálida e A Nossa Revista .
Este regiano conspecto debutante tem parelo, como vimos, com a primeira fase de Judith Teixeira, também ela imersa desde a adolescência em tentames literários e em colaborações por jornais e revistas. Voltemos, no entanto, ao tempo de Coimbra, época em que, como o sabemos pelas Páginas do Diário Íntimo, Régio procurava uma fórmula que resumisse o fim da sua Arte e que, até novas ordens, seria aquela que ele plasmou no seu diário com data de 22 de Fevereiro de 1923: “Revelar, numa forma toda criada em relevos ou em sugestões, quanto há em mim de simultaneamente mais humano e mais íntimo.” (16)
José Régio colabora na revista Bizâncio desde o primeiro número. Corre o ano de 1923 e o mês de Março, e eis que a nova revista coimbrã sai a lume com aquela nota programática de abertura da responsabilidade de Alexandre de Aragão: “Bysancio não significa de nenhum modo a sistemática exclusão da paisagem natural e formas nacionais pelo mármore dos cenários recompostos e nostalgias de poentes demorados e doentios. É mais um símbolo estético da união do que é uma resultante comum.” No entanto, e não obstante as palavras iniciais, replasma ainda a publicação coimbrã uma pesada influência simbolista e decadentista. Nela publica Régio o poema “Soneto dos Vencidos”, logo se seguindo, na revista nº 2, a “Canção do Regresso” e, no exemplar nº4, o poema “Humorismo a 40º de febre”. As vozes críticas logo se fazem ouvir, avultando, nessa reacção, os nomes de Álvaro Maia (17), sempre ele ( que por Maio, referindo-se ao segundo número da revista, não se contém que não diga: “O sr. José Régio colabora duplamente: em prosa e em verso. A Canção do Regresso, maus versos: a Ultima pagina, réles prosa cheia de blasfêmia. Cebo para estes bysantinos! Para estas misérias do sr. José Régio não valia a pena estar a incomodar do somno poeirento a derrocada de Bysancio!”), e de um “amigo” de Régio, de apelido Cotta (?) (que diz, no terceiro trimestre de 1923: “Aquilo que V. compõe são bizarros retalhos de coisas que a mim, pelo menos, passam desapercebidas; o que V. ainda mais torna impalpáveis, filtrando-os pela sua imaginação ou mórbida ou exótica. Auguro-lhe que a sua compleição poética nunca se fará conhecer pelas suas composições.”) (18).
É conturbada a iniciação de Régio, que, como Judith, se viu envolto em polémica e com o mesmo Álvaro Maia, e que, ao contrário da poetisa, começa a ganhar notoriedade através da colaboração numa revista demasiadamente presa ao passado, enquanto a autora de Decadência começa a conquistar visibilidade na publicação que era o “canto do cisne” do 1º Modernismo. Ainda assim, evidentes atinências, em época do mais que certo contacto da poesia de Judith Teixeira com o leitor privilegiado que era já José Régio, não obstante a falta de provas documentais ou textuais.
Em 1926, publica Régio os Poemas de Deus e do Diabo , tendo o poeta defendido, no ano anterior, a corajosa e renovadora dissertação para licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra intitulada As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa e subscrita pelo seu nome civil José Maria dos Reis Pereira. Entretanto, Judith Teixeira dá o melhor de si na direcção da revista Europa.
Enquanto se imprime Satânia, vem à tona viva do mundo o primeiro número da revista Presença, trabalho intensamente vivido naquela pequena casa coimbrã da Rua das Flores. E é nesse exemplar inaugural, com destaque de abertura, que se dá o primeiro encontro público de José Régio com Judith Teixeira, precisamente no derradeiro parágrafo do celebrado texto “Literatura Viva”:
“Eis como tudo isto se reduz a pouco: Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo êsse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que êle produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço. E é apenas por isto que os autos de Gil Vicente são espantosamente vivos, e as comédias de Sá de Miranda irremediavelmente mortas; que todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Bôtto; que os Sonetos de Camões são maravilhosos, e os de António Ferreira massadores; que um pequeno prefácio de Fernando Pessoa diz mais que um grande artigo de Fidelino de Figueiredo; que há mais fôrça íntima em catorze versos de Antero que num poemeto de Junqueiro; e que é mais belo um adágio popular do que uma bela frase de literato.” (19)
Esta tirada, que Judith poderá ter entendido como negativa para si, é, a meu ver, o primeiro texto crítico que afirma a presença irrefragável da poetisa na nossa memória literária, aí figurando a mulher-poeta ao lado dos não desprezíveis Sá de Miranda, Botto, António Ferreira, Fidelino e Junqueiro, prova, afinal, da convalidação de José Régio. Aliás, pouco depois do postulado regiano, é um Armando Vasconcelos de Carvalho que a diz, em páginas do Diário de Lisboa, “a melhor poetisa portuguesa da moderna geração”, com “poesias em que a sua autora recorta emoções de seu espírito, dos seus sentidos, de seus desejos.” (20) Nesta senda judicativa seja entendida ainda a opinião de João Gaspar Simões, que, dez anos volvidos, não deixa, no mesmo DL, de louvar a audácia da mulher-poeta (21).
Judith Teixeira é uma mulher de casos e descasos, de encontros e desencontros. Em sua casa consigo se encontraram, em Agosto de 1923, António Botto e Rafael Lasso de la Vega. Todos, incluindo Judith, vieram a encontrar-se com a morte naquele estranho ano de 1959: Judith morre em Lisboa, só e abandonada; Botto é estupidamente atropelado no Brasil; o ultraísta Lasso de la Veja é fulminado, por um ataque cardíaco, na porta giratória do Ateneu de Sevilha.
Não deixa ainda de ser espantoso que este indicioso ano de 2001, ano em que jubilosamente celebramos Régio e a sua acção literária com o pretexto da data do seu nascimento, tenha sido o ano da convalidação académica, aqui em Aveiro, em Outubro último, de uma primeira dissertação nacional e mundial sobre Judith Teixeira, vulto que, aliás, fora, meses antes, capa da revista Faces de Eva da Universidade Nova de Lisboa. Por fabulosa coincidência, que é mais um incindível encontro, a dissertação académica foi orientada pelo Professor Eugénio Lisboa, o mais resistente e estruturado regianista.
Régio e Judith Teixeira: eis um encontro entre uma voz nodal e uma “brasa ardente” que o esquecimento não logrou sepultar. Boa-tarde, Régio. Boa-tarde, Eugénio Lisboa.


* Este texto reproduz, com alterações, uma comunicação apresentada na Universidade de Aveiro (8º Encontro de Estudos Portugueses, 22 de Novembro de 2001) e posteriormente publicada em Presenças de Régio (Universidade de Aveiro, 2002).
(1) Sobre a data de nascimento de Judith Teixeira, nem sempre as informações têm sido as mais correctas. Face à escassez documental, não espanta o equívoco. A edição de Poemas (Lisboa, &etc, 1996), da responsabilidade de Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar, prova a naturalidade viseense da escritora e transcreve a prova irrefutável do assento de baptismo - que eu também compulsei -, que fixa, em definitivo, o ano de 1880 como data de nascimento da artista, afastando assim a tradição nascente que referia a data de 1873. Menos justificável é, no entanto, aquela imperdoável falha da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira , combatida até à exaustão por Eugénio Lisboa, que “certifica” ter Régio nascido em 1899. E, assim, de falhanços flagrantes se vai construindo uma história que, muitas vezes, é glosa do erro e eco enternecido disso.
(2) Cf. Jornal da Tarde de 21 de Outubro de 1918, p. 1. Trata-se provavelmente do primeiro texto judithiano impresso.
(3) Cf. Jornal da Tarde de 10 de Janeiro de 1919.
(4) Judith Teixeira colabora em Contemporânea com os poemas “Fim” (nº 2, Junho de 1922, p. 59), “O meu chinês” (nº 6, Natal de 1922, p. 128), “A cor dos sons” (3ª Série, nº1, 1926, p. 41) e “Vaticínio” (este nunca passando das provas de prelo para a revista nº 14, a publicar por 1929, e que nunca conheceu a luz do dia).
(5) Em carta dirigida a Cortes-Rodrigues, Fernando Pessoa deixa cair os celebérrimos “que diferença! que diferença!”.
(6) Pense-se no ensaio pessoano “António Botto e o Ideal Estético em Portugal” (Contemporânea, nº 3, 1922) ou no reactivo texto, também de Fernando Pessoa, de título “Sobre um Manifesto de Estudantes”, bem como no intenso “Aviso por causa da Moral” de Álvaro de Campos.
(7) Disse-o Aquilino Ribeiro, em entrevista ao Diário de Lisboa de 20 de Julho de 1923.
(8) Cf. A Capital de 22 de Março de 1923.
(9) Matei Calinescu, As Cinco Faces da Modernidade (Modernismo, Vanguarda, Decadência, Kitsch, Pós-Modernismo), Lisboa, Veja, 1999.
(10) Judith Teixeira, Decadência.Poemas, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1923, pp. 15-16.
(11) Id., ibid., pp. 31-32.
(12) Cf. a recensão de Gil de Carvalho à edição de Poemas de Judith Teixeira, da responsabilidade de Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar, no Independente de 8 de Novembro de 1996.
(13) Há uma evidente correlação estilemática entre Judith Teixeira e Delmira Agustini, como o comprovará uma qualquer espreitadela à obra judithiana e a Los Cálices Vacíos, por exemplo, da escritora uruguaia.
(14) Cf. René Garay, “Sexus sequor: Judith Teixeira e o discurso modernista português”, in Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher , nº 5, 2001, pp. 53-74.
(15) Sobre o conceito de isegoria, veja-se Telmo Verdelho, “DA ISEGORIA. Breve reflexão sobre o espaço verbal e o direito à palavra”, in Revista da Universidade de Aveiro/Letras, nº 3, 1986, pp. 139-156.
(16) José Régio, Páginas do Diário Íntimo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, p. 8. Introdução de Eugénio Lisboa e Notas de José Alberto Reis Pereira.
(17) Cf. Álvaro Maia, “Revista das revistas: ‘Bysancio’ – revista coimbrã – nºs 1 e 2”, in Revista Portuguesa de 12 de Maio de 1923, p. 29.
(18) Será esta pessoa de apelido Cotta pai ou familiar de António Rebelo Cotta, que apresentou à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em finais da década de quarenta, a dissertação para Licenciatura em Ciências Históricas e Filosóficas de título Fundamentos de uma Gnoseologia Pura (Coimbra, 1947)?
(19) Presença, nº 1, 10 de Março de 1927, p. 2.
(20) Diário de Lisboa de 15 de Agosto de 1927.
(21) João Gaspar Simões, no “Suplemento Literário” do Diário de Lisboa, nº 86, de 29 de Janeiro de 1937, p. 4, ao proceder à recensão de obras de autoria feminina, relembra o arrojo judithiano.








Wednesday, May 03, 2006

MEMÓRIA


Na morte de René Garay
Adelto Gonçalves (*)

Com a morte do professor René Pedro Garay (1949-2006), em Nova York, dia 29 de abril, as literaturas portuguesa e brasileira perderam um grande amigo e divulgador. Nascido em Havana, Garay, professor do City College-Graduate School/City University of New York (Cuny), escreveu, entre outros trabalhos, Judith Teixeira: o Modernismo Sáfico Português (Lisboa, Universitária Editora, 2002), em que estudou a obra de uma das maiores poetisas portuguesas do século XX, retirando-a do limbo a que havia sido relegada não só pelo preconceito de seus contemporâneos como pela indiferença de seus pósteros.
Sobre o assunto, Garay já havia escrito o ensaio "Sexus Sequor: Judite Teixeira e o discurso modernista português", publicado em Faces de Eva - Revista de Estudos sobre a Mulher, nº 5, 2001, da Universidade Nova de Lisboa, que trouxe na capa o rosto de Judith Teixeira (1880-1959), e outro que saiu em Artes & Artes, jornal literário da Universitária Editora, de Lisboa, além de ter pronunciado palestras em universidades portuguesas e norte-americanas.
O livro de Garay encontra-se nas bibliotecas da Universidade de Oxford, da Universidade de Chicago e da Universidade do Texas, em Austin, e faz parte de uma lista de leituras para um curso sobre o fascismo na literatura portuguesa na Universidade de Cambridge.
Na Cuny, dirigia desde 1992 o Programa de Literaturas Hispano-americana e Luso-Brasileira, que oferece aulas sobre o Modernismo português e brasileiro, Camões, a lírica medieval galaico-portuguesa, o Século de Ouro espanhol e o teatro ibérico. Publicou ainda Gil Vicente and the Development of the Comedia (University of North Carolina Press, 1989) e The Play of Rubena (Nova York, National Hispanic Foundation for the Humanities, 1993), em co-autoria com José Suárez, edição em inglês da Comédia de Rubena, de Gil Vicente.
Escreveu “First Encounters: Epic, Gender and the Portuguese Overseas Venture”, sétimo capítulo do livro Global Impact of the Portuguese Language (New Brunswick and London, Transaction Publishers, 2001) e, mais recentemente, cuidou da publicação de uma edição comemorativa do Monólogo do Vaqueiro, de Gil Vicente.
Publicou numerosos artigos e ensaios acadêmicos sobre literatura luso-brasileira e hispano-americana em Portugal, México, Brasil e Estados Unidos. Entre os autores brasileiros que estudou, estão Machado de Assis, Murilo Rubião, Moacyr Scliar, Graciliano Ramos, Dalton Trevisan e João Ubaldo Ribeiro.
No ano passado, passou alguns meses em Portugal, hospedado em Sesimbra, de onde, diariamente, viajava para Lisboa para fazer pesquisas na Biblioteca Nacional. Foi lá que começou a sentir os primeiros sintomas da doença que o levou. Retornou a Nova York já sabendo que não lhe restava muito tempo de vida.
Uma das maiores satisfações que teve, nos últimos tempos, como me contou por mensagem eletrônica, foi receber o exemplar que lhe enviei da bem cuidada Revista do Centro de Estudos Portugueses, da Universidade Federal de Minas Gerais, nº 34, v. 25, de janeiro-dezembro de 2005, que traz na abertura o ensaio que escreveu em parceria com Raúl Romero, “Epifanía y poema en prosa: el Livro do Desasssossego de Fernando Pessoa/Bernardo Soares”. Esse trabalho havia sido desenvolvido especialmente para a revista Forma Breve, da Universidade de Aveiro, nº 2, 2004.
Garay escreveu ainda ensaios sobre Luís de Camões, Camilo Pessanha, Almada Negreiros, Almeida Faria e Mário Máximo. Para desenvolver muitos de seus trabalhos, recebeu bolsas da Fundação Fulbright, dos Estados Unidos, e da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana, de Portugal. Era membro do conselho editorial da revista Signótica, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, e da revista The Literature of Travel and Exploration (Londres, Fitzroy Dearborn Publishers).
Nos últimos tempos, orientou a professora brasileira Regina Chaudhry em monografia sobre o mito de Inês de Castro e sua influência na produção poética brasileira do século XX, no âmbito de estudos de doutoramento na Cuny, ainda inédita. Garay concluiu mestrado em Literatura Espanhola na University of South Florida, em 1974, e em Literatura Portuguesa na Vanderbilt University, em 1979, onde obteve o seu doutorado em Literaturas Espanhola e Portuguesa em 1984.
Ensinou na Vanderbilt University, University of South Florida, The University of the South e no Presbyterian College. Foi também professor convidado da Universidade Nova de Lisboa, Universidade Aberta e Universidade Autônoma de Lisboa, da University of Puerto Rico, da Yale University, do New College, da Flórida, Rutgers University, de Newark, e da Universidade de Salamanca, Espanha.

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(*) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

Saturday, April 22, 2006

Judith Teixeira e o mérito editorial da revista "Europa"

Com direcção-edição de Judith Teixeira e com José Adolfo Coelho como secretário de redacção, a revista Europa - Magazine Mensal , nº 1, propriedade da editora do "Magazine Europa", com composição e impressão na tipografia de "O Sport de Lisboa", no Largo do Calhariz, 29, em Lisboa, veio à tona viva do mundo em Abril de 1925.
Este primeiro número, com abundante apoio publicitário e com as páginas inumeradas, aparece dividido nas rubricas "Novelas e Contos", "Reportagens", "Artigos, Versos, Actualidades, etc.", "Teatro" e "Films", possui capa de Jorge Barradas, que é também ilustrador, a par de Bernardo Marques e Rocha Vieira, estando os clichés a cargo de Mário Novais. Aí se destacam, no atinente à primeira rubrica, e depois de ultrapassada a inicial vista panorâmica de Lisboa, os textos narrativos de Julião Quintinha ("A loucura de Lady Mac Russell", ilustrado por Bernardo Marques), Reinaldo Ferreira ("Mataram o Duque!", com ilustrações de Jorge Barradas), de José Adolfo Coelho ("As duas marquêsas", com trabalho ilustrativo de Jorge Barradas), de Phantasias ("A Guerra do Futuro", com ilustrações de Rocha Vieira) e de Carolina Homem Cristo ("Mais um Padre-Nosso pelas Alminhas do Purgatório", ilustrado por Bernardo Marques). Seguem-se, na ordem sumarial, dois textos sob a designação "Reportagens", o primeiro intitulado "A 5ª arma", com nove fotografias, e o segundo sob a designação de "Um cinema moderno". No passo seguinte, "Artigos, Versos, Actualidades, etc.", surgem textos de António de Cértima ("Elogio do Chiado", com ilustrações de Jorge Barradas), de Reinaldo Ferreira ("Como se toma um chá em Lisboa", também ilustrado por Jorge Barradas), de Victor Falcão ("Bugigangas", com trabalho ilustrativo de Bernardo Marques), de Félix Bermudes ("A situação desportiva"), de Motta Cabral ("Toiros e Toiradas", com clichés de José Wan-Zeller Palha) e de D. Maria Isabel Gamito, que por lá publica o soneto "A Ideia". Ainda neste mesmo espaço, são dados à estampa textos não assinados ("A génese dos mundos", com clichés fornecidos pelo Dr. Ismael dos Santos Andrea, astrónomo da Faculdade de Ciências de Lisboa; "O fundo do mar" e "O misterio dos bastidores", este com ilustração de Cunha Barros), não sendo de descartar a mais que provável autoria judithiana de algum deles, bem como é feita a reprodução de quadros presentes n' "O Salão de Outono" da autoria de Almada Negreiros, António Soares ("Retrato do Dr. Motta Cabral"), Eduardo Viana ("Paisagem"), Jorge Barradas e Mário Eloy ("Retrato do Arq. José Pacheco"). Na rubrica "Teatro", surgem-nos o "Projéto de um teatro moderno" de José Pacheco, o texto não subscrito "O Teatro Novo" e uma "Antologia Teatral", contendo o tríptico dramático original "Humanidade" de José Adolfo Coelho. Nos "Films" descobrimos reproduções de um busto da autoria de Diogo de Macedo, uma panorâmica fotográfica lisboeta de Serra Ribeiro ("Lisboa a vôo de pássaro") e "O monumento ao Marquês de Pombal". Por último, na página que inicia a "Cronica Literaria" reproduzem-se fotografias de Raul Lino, com a legenda "Raul Lino o arquiteto do Tivoli", e de M. Rachilde e Homem Christo, que recentemente haviam publicado uma obra conjunta editada em Paris por Ernest Flammarion, com o texto explicativo sob o cliché "A escritora Francesa M. Rachilde e Homem Christo, autores de Au seuil de l' Enfer ", sendo ainda alvo de breve recensão literária, nessa e na página seguinte, as obras Ao Sol de Mota Cabral, Pierrot e Arlequim de José de Almada Negreiros, Epopeia Maldita de António de Cértima, Cavalgada do Sonho de Julião Quintinha, A Invasão dos Judeus de Mário Saa e um In Memoriam de Camilo Castelo Branco da Casa Ventura Abrantes, trabalho certamente da responsabilidade de Judith Teixeira.
A revista nº 2, de Maio do mesmo ano, tem capa de Bernardo Marques e ilustrações de Eduardo Malta, Adolfo Haussmann e Martins Barata, seguindo uma tectónica idêntica à do primeiro número. Assim, e relativamente à rubrica "Novelas e Contos", encontramos "O mistério do Paço de Salvaterra" de António Alves (ilustrado por Eduardo Malta), "Prisioneira da Vida" de José Adolfo Coelho (também ilustrado por Eduardo Malta)) e "O caso do doutor Krauss" de Henrique Roldão. Na sequência, aparecem as "Reportagens" "Os inimigos da Humanidade" e "Film do Caes", ambas com clichés de Mário Novais. Na rubrica subsequente, "Artigos, Versos, Actualidades, etc.", deparamos com os textos informativos e de divulgação "Lisboa" de António Alves (com ilustrações de Bernardo Marques), "Como morreu Edgard Poe" de Augusto d' Esaguy, "O despido no Cinema" por Écran, "A verdade acêrca de Raffles" de Reinaldo Ferreira, "A Condessa Mathieu de Noailles" de Reinaldo Ferreira, "A Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais Modernas" de Peregrino e "Elegancias" por Maria, com os poemas "A morte d' Arlequim" de Boris H. Knircha e "Arraial Ribatejano - Prologo" de Motta Cabral, bem como com as contribuições não assinadas e, em parte, de possível autoria judithiana "Judas Iscariotes" (ilustrado por Adolfo Haussmann), "Foi alguma vez conhecido o segrêdo de fazer ouro?", "A pintura na Belgica", "Mah-Jong", "Jackie Coogan, o garoto inimitavel", "Toiros e Toiradas", "Os Enigmas do So-brenatural", "Valores Nacionais - A cortiça" com ilustração de Martins Barata e com uma reprodução de um quadro de Milly Possoz do "Salão d' Outono". Na rubrica "Teatro d'Hoje", em texto não assinado e de quase evidente estilismo judithiano, fala-se sobre "Bernard Shaw - Georg Kayser - Luigi Pirandello". São ainda fornecidas in-formações de "Sport", "Teatro" (aqui com uma interessante foto de Mme. Herleroy) ou "Films", registando-se ainda, na "Cronica Literaria", as recensões às obras Historia das Matematicas na Antiguidade de Fernando de Almeida e Vasconcelos, Saudade de Beatriz Arnut, A Patria Portugueza e Brazileira de Nuno Catharino Cardoso, Quadras de Virgínia Madeira, A Paisagem , a Mulher e o Amor nos versos de João Lucio, Candido Guerreiro e Bernardo de Passos de José Dias Sanches, Influencia da Mulher na Vida Agricola de Joaquim M. Santos Garcia e Auto da Vida Eterna de Augusto Santa Rita. Completa o con-junto a reprodução de uma escultura de Francisco Coelho representando uma cabeça. Não deixa ainda de ser interessante a nota de pesar alusiva à morte de João Chagas impressa na p. 46 da revista Europa , que manifesta uma indenegável pungência e um halo de admiração evidente. (continua)

JUDITH TEIXEIRA E O MÉRITO EDITORIAL DA REVISTA EUROPA (II)


O último número, de Junho do mesmo ano, com capa de Jorge Barradas e ilustrações de Cunha Barros, contém contribuições poemáticas ("Lisboa, tantos de tal" de José Bruges d'Oliveira, "Charneca em flôr" de Florbela Espanca e "Sonetos para a ausente" de Américo Durão), colaborações narrativas literárias ("Adeus! Adeus!" de Aquilino Ribeiro, parte integrante da obra Filhas de Babilónia ; a novela "A loucura do <>" de João de Sousa Fonseca; "Sevilla City. La Primavera Ingleza" subscrito por El Terrible Perez; "A mão do Macaco" de Pasker e Jacobs e a novela de Carolina Homem Christo "E o amor salvou das chamas..."), textos de actualidade como "Mulheres de Agora" por António de Cértima, "Venus...civilisa-se" por Écran, "Lisboa - Guiné. Rapidas impressões de uma viagem aérea" de Pinheiro Correia, "Um triunfo da casa" por Fairey e ainda colaborações multimodais, abordando temas diversificados que passam pela arquitectura ("Arquitectura Regional" de Carlos Ramos), pela cinematografia ("A cinematografia alemã" de Reinaldo Ferreira e um abundante número de fotografias cinematográficas, onde pontuam os nomes de Manfred Noa, Hans Kyser, Carmen Santos ou Marcel L' Herbier), pela criatividade social ( Ferreira de Castro e a sua "Alegoria dos pequenos profissionais"), pela física ("As revelações da luz. A analise espectral.", de Fernando de Almeida e Vasconcelos) ou pela reportagem policial ("Como se faz uma peça policial", p. 48, texto assinado por X). Ressumam também textos não assinados, logo, sob suspeita judithiana, como "O segredo das piramides" , "Féras e Domadores", "Plantas carnivoras", "O Riso no Cinema", "Ultimas Invenções - Um navio sem velas nem helice", "Pedras Fataes", "Morreu Camilo Flammarion" ou a recorrente "Cronica Literaria", onde são alvo de recensão aos livros Politica Portuguesa de Bento Carqueja, Morte em San. Miguel-de-Seide de Veloso Araújo, Legenda Dolorosa do Soldado Desconhecido de Africa de António de Cértima, Jardim do Ocidente de Alípio Roma e Asas Exiladas de Aleixo Ribeiro.
E assim, com capas de Jorge Barradas e Bernardo Marques, com contributo ilustrativo deste último e de Cunha Barros, Adolfo Haussmann, Eduardo Malta e Jorge Barradas, com presença fotográfica de José Wan-Zeller Palha, Mário Novais, Rocha Vieira e Serra Ribeiro, com reproduções de obras plásticas de Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, João Carlos Celestino Gomes, Diogo Macedo, Eduardo Viana, Francisco Franco, Jorge Barradas, José Pacheco, Marcel Gaillard, Mário Eloy e Milly Possoz, bem como com a contribuição literária de António de Cértima, Aquilino Ribeiro, Augusto d'Esaguy, Florbela Espanca, Ferreira de Castro, Julião Quintinha, Reinaldo Ferreira e Victor Falcão, esta Europa veicula, através do labor de artistas dominantes no seu tempo e com perenidade assegurada no transcurso histórico-cultural, a verdade irrefutável da peculiaridade activa da sua directora. "Com as suas crónicas e contos de bons autores do género e excelentes capas de Barradas", a revista ideada por Judith Teixeira, ecléctica, com "secções diversas de cinema, desporto, teatro, moda, ficção científica e alguma colaboração literária", é, ao lado da erudita Lusitânia (Revista de Estudos Portugueses) dirigida por Carolina Michaelis de Vasconcelos, um caso ímpar de afirmação feminina na década de vinte. De facto, as direcções femininas das revistas Europa, de que saíram três números em 1925, e Lusitânia, de que se publicaram quatro volumes divididos em dez números entre 1924 e 1927, são casos praticamente únicos de assunção das capacidades feminis para trabalhos intelectuais que constituíam, até então, território de grande dominância masculina, lembrando, nesse arrojo, a actividade desenvolvida, no primeiro lustro do século XX, por Ana de Castro Osório e Olga de Morais Sarmento da Silveira à frente dos destinos da revista Sociedade Futura .
Não obstante o grau zero de literariedade que Clara Rocha descortina nela, inserindo-a nos títulos geográficos , "que situam a revista no espaço", bem como a feição tradicionalista que a mesma estudiosa por lá encontra, Europa é uma publicação do seu tempo, como o parece indiciar aquela inaugural fotografia panorâmica de Lisboa, que, nesse modo de inserção cosmopolita e na atenção dispensada aos novos fluxos industriais, culturais e científicos, parece abraçar as palavras de Almada Negreiros no "Ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX" (1917) no sentido de "criar e desenvolver a actividade cosmopolita das nossas cidades" e "ter a consciência exacta da Actualidade".
Ora, nessa vontade e nesse fulgor com fim anunciado - quantas revistas de feição cultural não ficaram pelo caminho? - habita um nome dirigente, Judith Teixeira, que não pode ser apagado, desvalorizado ou esquecido. Afinal, a revista dirigida pela autora de Decadência é uma das boas realizações artísticas da década de vinte. E, assim sendo, não vejo como manter a espessa bruma que tão caprichosamente tem recoberto o espírito singular de Judith Teixeira, nem, é certo, vislumbro como dissipar as dúvidas autorais relativamente a parte de textos não assinados e que manifestam, a meu ver, uma constância estilemática judithiana. Venha agora o silêncio respeitoso e a inscrição definitiva do projecto editorial Europa em lugar de mérito...