Sunday, August 24, 2014

O sonetista Jayme Azancot e Judith Teixeira


O sonetista Jayme Azancot e Judith Teixeira

Quando a magnífica tábua biobibliográfica sobre Judith Teixeira plasmada na não pouco esbelta edição dos Poemas[1] judithianos, sob o nome «Scriptorium» e da responsabilidade de Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar, adianta que no dia 8 de março de 1913 é «dissolvido o casamento de Judith com Jaime Levy Azancot, empregado comercial»[2]. Uma atinência estética entre o casal é aí omitida, certamente por falta de informação – é que este Jayme Azancot viria a colaborar, num encontro de vidas já desencontradas, na celebérrima revista Contemporanea, «feita expressamente para gente civilizada» e «feita expressamente para civilizar gente». Tal acontece no seu nº 8, já depois de dois contributos de Judith Teixeira no ano anterior, por 1922, quando por lá fez publicar o sonetilho «Fim»[3], escrito em setembro de 1921, e o poema «O meu chinez»[4].
É precisamente em posição final na revista nº 8 que aparecem, em duas páginas consecutivas, os sonetos «Bucólica»[5] e «Solidão»[6] de Jayme Azancot, que transcrevo:

                                                                  BUCÓLICA

Montanhas e valados do Senhor
Aonde nascem peregrinas flôres
E aonde se debuxam várias côres
Num concerto de luz fascinador;

Em vós tecem enredos mil de amôr
Os poetas ingénuos e os pastores
Que em suas alegrias suas dôres
Hão-de sempre a beleza eterna pôr!

Almas ingénuas, melodiosamente
Elevam maravilhas amorosas
Nas palavras que formam seus cantares.

E todo o artista que ali esteja sente
Que os canticos de amor são como rosas
Eternamente perfumando os ares.


                       SOLIDÃO

Este planalto misterioso leva
A terras idiais e nunca vistas,
Aonde as sensações mais imprevistas
Desaparecem num céu que gela e neva.

Em torno dêle uma profunda tréva
Derrama e esbate a sombra das conquistas,
E pelo céu de opalas e ametistas
O sol rubro e pagão nunca se eleva.

Que terra é esta gélida e tão nua,
Em que um bruxo desenha alegorias
Aonde canta um desespero vão?

E a tal pergunta só responde a lua,
Muito ao longe, lançando pratas frias
Pela terra sem fim da Solidão!


Cinérea também, a poesia de Judith Teixeira escrevia-se no soneto «Cinzas» e nas sombras de outra forma poética fixa de título «O palhaço». Entre janeiro e março de 1923 a solidão poética dos poemas de Azancot não o faziam chegar à casa da poesia. Um dia perto e já longe, Judith cavalgava ardentemente os castelos tristes e derruídos do silêncio por chegar. E isso era uma poesia outra, em que o fel é boca e o silêncio canto.

Viseu, 24 de agosto de 2014
©Martim de Gouveia e Sousa



[1] Judith Teixeira, Poemas. Decadência, Castelo de sombras e Nua. Conferência De Mim, Lisboa, &etc, 1996.
[2] Loc. cit., p. 228.
[3] Contemporanea, nº 2, junho de 1922, p. 29.
[4] Contemporanea, nº 6, dezembro de 1922, p. 44.
[5] Contemporanea, nº 8, fevereiro de 1923, p. 111. Conservou-se a grafia epocal.
[6] Contemporanea, nº 8, fevereiro de 1923, p. 112. Conservou-se a grafia epocal.

Monday, August 18, 2014

Álvaro Virgílio de Franco Teixeira e Judith Teixeira

Álvaro Virgílio de Franco Teixeira e Judith Teixeira

Depois de ter estado casada com Jaime Levy Azancot (*27.03.1876), filho de António Azancot (*1830), nascido em Tânger, e de Meriam Levy Benuyli (*24.06.1843), nascida em Gibraltar, ambos os pais de famílias de raiz hebraica, Judith Teixeira veio a casar no Luso, com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira (Lisboa, São José, 13.01.1888), filho de Luís Virgílio Teixeira[1] e Zulmira d’ Almeida Franco Teixeira[2].
Ao invés de um troço assertivo de pelo menos duas décadas, quis o tempo que Judith Teixeira escrevesse o capítulo da chegada ao ponto «em que já não se diz eu»[3]. Deixemos por agora o fulgor e a recaída de um belo trajeto artístico, olhando para o desenho vital do homem e marido que veio a contribuir definitivamente para o emblema significativo da marca poética nominal – afinal, Judith é Teixeira porque casou com Álvaro Virgílio de Franco Teixeira, parecendo, sem ironia, que o primeiro elemento denominativo, de origem judaica, encaixava integralmente com o primeiro casamento havido com Jaime Levy Azancot.
Ora, o passado de Álvaro Teixeira desvela-se, por exemplo, na obra de Diamantino Calisto intitulada Costumes académicos de antanho (1898/1950), quando se contam alguns interessantes e divertidos episódios dos estudantes coimbrãos de início do século XX. Aprecie-se o quadro:
As partidas feitas e organizadas pelo Trindade Coelho[4], alma de eleição, poeta primoroso e espírito cintilante, aos companheiros de casa, marcavam pela graça e por serem inofensivas.
Contarei algumas:
O «caloiro» Álvaro Virgílio Teixeira, belíssimo rapaz, esperto, mas ainda muito inocente, dispunha de dinheiro, tendo crédito aberto na importante casa comercial Gaito & Canas[5].
Era neto do «saudoso», no dizer dos Mestres, Visconde de Seabra[6].
Apesar de ser bom estudante, lembrou-se um dia de dar umas faltas justificadas, por doença.
Pediu ao Trindade Coelho para ir chamar o Dr. Daniel de Matos[7], a fim de este lhe passar o respectivo atestado.
De que se há-de lembrar o Trindade Coelho?
Não chamar o Dr. Daniel e pregar um tremendo susto ao «caloiro».
Se bem o pensou… bem o fez.
Disse ao «caloiro» que o Reitor da Universidade, tendo-lhe chegado ao conhecimento de que ele não se encontrava doente de facto, tinha tomado todas as providências para que o Dr. Daniel não acorresse à chamada, e para que «dois Lentes» de Medicina o fossem examinar, enviando à Reitoria o respectivo relatório.
À tarde apareciam os «tais Lentes», Chico Pedro e Matos Chaves[8], alunos de Medicina, vestidos à futrica, os quais depois de um exame «circunstanciado» ao «caloiro», terminaram por declarar que ele estava… de perfeita saúde.
O «caloiro» bem se queixou de todas as doenças, mas os «Lentes», imperturbáveis, saíram, tendo cobrado, cada um, 2.500 réis.
Aflito, o «caloiro», pede então ao seu «algoz» para mandar um telegrama ao pai, a fim dele vir imediatamente.
Forjou-se um telegrama tão extenso, que importou em 2.455 réis!
Esse telegrama, escrito em papel aparte do respectivo impresso, foi substituído por outro enviado a um amigo do Trindade, no qual se pedia para ele mandar um telegrama em nome do pai do «caloiro», dizendo que a Universidade o proibia de entrar em Coimbra.
Este telegrama, também escrito em papel aparte e colado no impresso, foi devolvido com a declaração de que não podia seguir nos termos do artigo… do Regulamento dos Telégrafos.
Substituindo então este pelo primeiro, foi dito e «provado» ao «caloiro», que o seu telegrama não podia seguir por ordem da Universidade!
A aflição do «caloiro» era cada vez maior, considerando-se já com o ano perdido. O Trindade Coelho alvitrou então ao «caloiro» a necessidade, talvez salvatória, de alguém, amigo ou parente do Dr. Calisto, pedir a este toda a sua benevolência para o caso e lembrou-lhe, para isso, o sobrinho.
Posto ao corrente do que se estava passando pelo Trindade Coelho, este disse-me para ir ao quarto do «caloiro», que me pediu, quase de mãos postas, para o salvar.
Prometi-lhe que iria empregar todo o meu «valimento» junto daquele meu parente, mas que não podia garantir o êxito da minha démarche em vista do caso se me apresentar muito complicado.
À tarde, disse-lhe que tinha feito o pedido e que tinha sido atendido.
No dia seguinte reapareceram os mesmos «Lentes» que «achando-o já doente», disseram ir comunicar o facto à Reitoria.
Ao retirar-se, cobraram mais 2.500 réis, cada um, deixando-lhe o peito pintado com tintura de iodo.
O Dr. Daniel de Matos achou graça à partida e lá foi salvar o rapazinho passando-lhe o atestado.
Ao jantar, depois de se verificar que havia em cofre 12.455 réis, propuz que, em sinal de regosijo por ele não ter perdido o ano, se oferecesse uma ceia ao «caloiro».
O «caloiro», comovido, protestou energicamente, pois era a ele que «cumpria pagar».
Chegou-se contudo a este acordo: se a despesa com ceia fosse superior áquela importância, única que possuíamos, o «caloiro» entraria com o que faltasse.
Era uma hora da noite, quando eu e o «caloiro» nos dirigimos para o «João Magrinho»[9], onde já se encontravam os restantes convidados, entre os quais os «Lentes» que acompanharam à guitarra e à viola as cantadeiras do fado.
O «caloiro», só então, viu tudo…
Mas já era tarde.[10]    

Álvaro Virgílio de Franco Teixeira casou com Judith Teixeira no dia 22 de abril de 1914. Como o diz o registo de casamento[11], o consórcio ocorreu em casa do noivo, no Bussaco e das testemunhas presentes ao ato nenhuma quis ser considerada padrinho ou madrinha. Estiveram presentes: Albertina Pereira de Matos, doméstica; Sara Serra Lopes de Moraes, doméstica; Ilídio Pereira de Matos, comerciante; e Alexandre Lopes de Moraes, comerciante.
É esta a sina de Judith Teixeira – uma adstringência ao banimento, uma pulverização de tudo, uma desconsideração. E, no entanto, todos os exílios nada podem contra o verso rútilo em que vive.




[1] Natural da freguesia de Santa Justa, em Lisboa, com a profissão de proprietário.
[2] Natural do Rio de Janeiro, Brasil, e doméstica de profissão.
[3] Gilles Deleuze e Feliz Guattari, Rizoma, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, p. 7.
[4] Trata-se de Henrique Trindade Coelho (1885-1934), primeiramente poeta, e depois político, jornalista e diplomata. Não deve ser confundido com José Francisco Trindade Coelho (1861-1908), notável contista, didata, pedagogo e jurista, de quem era filho. Notas minhas.
[5] Lemos, por exemplo, na Gazeta de Coimbra de 18 de setembro de 1920, nº 1057, que a firma Gaito & Canas esteve estabelecida, em Coimbra, na rua (calçada) do Cego. Já o anterior 5 de Outubro de outubro de 1913 informa que a empresa coimbrã se chamava «Mercearia Lusitana», com especialidade em géneros de mercearia, materiais para construção, compra e venda de papéis de crédito, bem como seguros contra fogo. A antiguidade da casa é dada pelo telefone nº 8. Notas minhas.
[6] De facto, António Luís de Seabra e Sousa (1798-1895) veio a casar, depois do primeiro esponsal havido com a prima co-irmã Doroteia Honorata Ferreira de Seabra da Mota e Silva, com Ana de Jesus Teixeira, avó de Álvaro Virgílio de Franco Teixeira. Ana de Jesus Teixeira casava-se também pela segunda vez e fora casada com Manuel Joaquim Teixeira. Notas minhas.
[7] Daniel de Matos (1850-1921) é um reconhecido médico e professor universitário.
[8] Certamente, o futuro doutor Alfredo Matos Chaves, tantas vezes presente em celebrações e representações da academia, como encenador, ponto e caracterizador.
[9] Veja-se, v.g., Elísio Estanque, «Juventude, boémia e movimentos sociais: culturas e lutas estudantis na universidade de Coimbra», in Política & Sociedade, vol. 9, nº 16, abril de 2010, p. 266 e a referência à antiga fama do «Magrinho e os seus acepipes em cubículos de lona».
[10] Diamantino Calixto, op. cit., Porto, Imprensa Moderna, L.da, 1950, pp. 117-119. Foi mantida a ortografia do original. Este episódio foi republicado, com ligeiríssimas alterações, em 1958: Diamantino da Mara Calisto, «Chateau Rose – a minha república», in Rua Larga – Revista dos Antigos Estudantes de Coimbra, nº 9, Coimbra, 20 de janeiro de 1958, pp. 256-258.
[11] Luso, 1914, livro 4º, registo 66, Conservatória do Registo Civil de Mealhada.

Friday, February 07, 2014

«Decadência» (1923), de Judith Teixeira – o início da coragem literária


LIMIARES DA ESCRITA 
Decadência (1923), de Judith Teixeira – o início da coragem literária

Uma literatura começa aqui, em Judith Teixeira. Nascida em Viseu, pode mesmo dizer-se que nem todos os filhos da cidade poderão deixar assim uma marca tão singular na cultura portuguesa. E, no entanto, se a visibilidade da poetisa é cada vez mais evidente, é tempo ainda de se perguntar se já ouviram falar de Judith Teixeira.
António Manuel Couto Viana, em 1977, di-la-á a única mulher no modernismo português, calando as vozes dissonantes e importantes de Régio e Pessoa. O tempo, esse grande escultor, faz agora cada vez mais vir à tona o caráter indomável de uma voz forte e diversa, que ousou, em tempo de impossibilidade, desafiar as conveniências da moral sexual ou coisa que o valha, se tal existe. Depois do de Couto Viana, outros atos hermenêuticos vieram coonestar a linha fulgurante da criação judithiana: estão aqui implicados os nomes de Cecília Barreira, Fátima Maldonado, Maria Leonor Nunes, Maria Jorge, Luís Manuel Gaspar, Vítor Silva Tavares, Cláudia Pazos Alonso, Eduardo Pitta, Martim de Gouveia e Sousa (perdoe-se a imodéstia…), o saudoso René Garay e os pósteros Alicia Perdomo, Ana Raquel Fernandes, Àfrica Riera Ventura, Suilei Monteiro Giavara, Fabio Mario e Andreia Boia, entre outros que a memória não lembra.
Como no poema de Dylan Thomas, cedo à mão «ao assinar este papel», tomo o primeiro livro de Judith Teixeira (Decadência, 1923) e leio, atualizando a grafia:

A ESTÁTUA

O teu corpo branco e esguio
prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
aqueces o mármore frio
do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão,
a arder na febre dum delírio,
os olhos roxos como um lírio,
venho espreitar os gestos que eu sonhei…
…………………………………………..
- Sinto os rumores duma convulsão,
a confessar tudo que eu cismei!
………………………………………….
Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
num tormento,
a singular razão dos meus cuidados!

Fevereiro – Noite luarenta
                   922

Publicada a coletânea, calcule-se o escândalo! O livro acabou por ser indiciado e queimado em hasta pública, na polémica que ficou conhecida como caso da «literatura de Sodoma». Estávamos em 1923 e no ato de biblioclasmo conheceram também as cinzas Sodoma divinizada de Raul Leal e as Canções de António Botto. Iradas, nomeadamente contra Judith Teixeira, ergueram-se as vozes acusadoras de Pedro Teotónio Pereira e Marcelo Caetano.

Judith Teixeira nasceu em Viseu, junto à Porta dos Cavaleiros, no dia 25 de janeiro de 1880, vindo a falecer em Lisboa, sozinha, a 17 de maio de 1959. A escritora deixou-nos mais dois livros de poemas, uma conferência e um volume de novelas. Em 1959, um jornal de Viseu noticiava, pesaroso, a morte de António Botto. Sobre Judith Teixeira, nada mais do que silêncio. E é aí que a morte procria devindo poesia. Quem vem ler Judith Teixeira?    [Correio Beirão, nº 3]

Wednesday, January 08, 2014

A deflagração erótica em Judith Teixeira



Judith Teixeira, «Núa. Poemas de Bysancio escritos que foram por...», Lisboa, Editores: J. Rodrigues & Cª., 1926, p. 18, poema «A vida».

Wednesday, December 11, 2013

JVDITH TEIXEIRA, «Satânia. Novelas», Lisboa, Editores Rodrigues & C.ª, 1927.





JVDITH TEIXEIRA, «Satânia. Novelas», Lisboa, Editores Rodrigues & C.ª, 1927. 

Sunday, July 21, 2013

Judith Teixeira e Maria Archer – com Aquilino Ribeiro




Judith Teixeira e Maria Archer – com Aquilino Ribeiro
[este texto é publicado agora pela primeira vez, uma vez que o não foi anteriormente, como anunciado, por equívoco]

Há uniões e laços que o tempo ousa promover. Existem mesmo relações que apenas Cronos consegue afinar com ajuda de vulgares humanos como mão escrevente. E a fábula resume-se a isto:
Depois da cavalgada demolidora dos destruidores da chamada «literatura de Sodoma» (ali por 1922 e 1923, na capital do império, na biblioclastia de Judith, Botto e Leal), ainda na cinza quente da investida, Aquilino Ribeiro bem frisou a qualidade mais do que estimável da mulher poeta Judith Teixeira, afirmando-a e afirmando-se contra a perseguição de pensamento e de liberdade artística, adverso a tresleituras artísticas. E disse-o em entrevista à conceituadíssima Revista Portuguesa, dirigida por Victor Falcão, no ano de 1923.
Há atitudes que desvelam uma ética e o estrito respeito pelo rigor artístico – esta a inscrição de Aquilino no porvir, a de saber estar nos momentos certos com as melhores atitudes.
Entre Judith Teixeira e Maria Archer, existem alguns traços em comum: por exemplo, um estranho esquecimento lavrante; uma perenidade pela insujeição; a luta contra as cruzadas dos «bons costumes»; o vezo corporal; o divórcio em tempo de o «não haver»; a valia conferente (bem mais evidente em Archer); a produção literária com condição, com implicação social; a afirmação da não inferioridade intelectual da mulher; as perseguições; os abandonos; os exílios (o de Judith menos físico e mais mental).
Maria Archer, como Judith, teve as suas perseguições. Trabalhando Archer como jornalista repórter para o jornal República no julgamento de Henrique Galvão, em 1953, eis que a PIDE intervém, confiscando-lhe os apontamentos – não se ficando, a intelectual escreveu um artigo que fez publicar no jornal com o título «Um caso inédito de perseguição do pensamento» (20 de outubro de 1953). Como decorrência, Maria Archer vê-se obrigada a abandonar o país. Solidários, na despedida estiveram Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro.

Com Aquilino Ribeiro, Judith Teixeira e Maria Archer afirmam o caráter indómito de valores e princípios. Eles estiveram lá, no momento certo, sem tergiversações. 

Amarelhe e Judith Teixeira



Amarelhe notabilizou-se pela ação artística e pela veia satírica bem presente em alguns dos seus desenhos. Este é um desses casos e foi publicado no jornal O sempre fixe, em 1926. Trata-se de mais um ataque bem direto a Judith Teixeira, que vinha arrostando, desde 1923, com sátiras e pregões a seu respeito.
Tomando-lhe o corpo, Amarelhe destaca o traço do excesso físico. No passo, salienta o desvio sexual e a exorbitância dos sentidos. Tudo, afinal, em encaixe com uma moralidade castrada, conveniente e agónica. A ditadura militar chegava e, em breve, haveria Estado Novo. E tal admoestação, vinda de um artista de qualidade, como o foi Amarelhe, não é bem de artista e mais de guardião da «moralidade».

Thursday, March 08, 2012

"Ninguém", de Judith Teixeira


Embriaguei-me num doido desejo
e adoeci de saudade.
Caí no vago..., no indeciso...
Não me encontro, não me vejo -
perscruto a realidade!...

E fico a tatear a escuridão...
Ninguém..., ninguém...
Nem eu, tão pouco!

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.

Hora sombria
1923

Monday, February 13, 2012

Judith Teixeira e Maria Archer


Há uniões e laços que o tempo ousa promover. Existem mesmo relações que apenas Cronos consegue afinar com ajuda de vulgares humanos como mão escrevente. E a fábula resume-se a isto:
Depois da cavalgada demolidora dos destruidores da chamada «literatura de Sodoma» (ali por 1922 e 1923, na capital do império, na biblioclastia de Judith, Botto e Leal), ainda na cinza quente da investida, Aquilino Ribeiro bem frisou a qualidade mais do que estimável da mulher poeta Judith Teixeira, afirmando-a e afirmando-se contra a perseguição de pensamento e de liberdade artística, adverso a tresleituras artísticas. E disse-o em entrevista à conceituadíssima Revista Portuguesa, dirigida por Victor Falcão, no ano de 1923.
Há atitudes que desvelam uma ética e o estrito respeito pelo rigor artístico – esta a inscrição de Aquilino no porvir, a de saber estar nos momentos certos com as melhores atitudes.
Entre Judith Teixeira e Maria Archer, existem alguns traços em comum: por exemplo, um estranho esquecimento lavrante; uma perenidade pela insujeição; a luta contra as cruzadas dos «bons costumes»; o vezo corporal; o divórcio em tempo de o «não haver»; a valia conferente (bem mais evidente em Archer); a produção literária com condição, com implicação social; a afirmação da não inferioridade intelectual da mulher; as perseguições; os abandonos; os exílios (o de Judith menos físico e mais mental).
Maria Archer, como Judith, teve as suas perseguições. Trabalhando Archer como jornalista repórter para o jornal República no julgamento de Henrique Galvão, em 1953, eis que a PIDE intervém, confiscando-lhe os apontamentos – não se ficando, a intelectual escreveu um artigo que fez publicar no jornal com o título «Um caso inédito de perseguição do pensamento» (20 de outubro de 1953). Como decorrência, Maria Archer vê-se obrigada a abandonar o país. Solidários, na despedida estiveram Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro.

Com Aquilino Ribeiro, Judith Teixeira e Maria Archer afirmam o caráter indómito de valores e princípios. Eles estiveram lá, no momento certo, sem tergiversações. 

Sunday, September 18, 2011

Isto: Judith Teixeira regressa a Viseu



“A compreensão vulgar chamou-me por isto, é claro,
imoral e dissolvente!...”
(Judith Teixeira, De mim)


Vieram as palavras e os homens. E, de repente, não havia ainda ágora para as mulheres. Estranho equívoco, este, que não adivinhava o postulado de Mario Vargas Llosa da tendência universal das mulheres se aproximarem da literatura e dos homens dela se afastarem[1]. Acho até que Llosa não quer significar aquilo que parece e antes aludirá a uma sensibilidade comum a mulheres e homens que permite a tal aproximação.
Como em Luís Miguel Nava, “o tempo dá de súbito um salto para trás”[2]. Judith irrompe na cultura portuguesa com um certeiro sonetilho publicado na fulgurante e belíssima revista Contemporânea, de José Pacheco, objecto também estético (e muito!) feito “expressamente para gente civilizada” e “para civilizar gente”[3]. Estávamos em 1922 e a criação judithiana, de título “Fim”[4], iria provocar um enorme alvoroço na nossa capital – o sonetilho, bem além da subpoesia de José-Augusto França[5], referia umas impossíveis “orgias de morfina”. Esta é, pois, verdadeiramente a entrada de Judith Teixeira no palco das letras nacionais:



Era esta uma entrada infungível anunciando o que aí vinha. No ano seguinte, em 1923, a colectânea Decadência será uma das obras a integrar, juntamente com Canções de António Botto e Sodoma divinizada de Raul Leal, o auto-de-fé em que as citadas serão reduzidas a cinzas, sob a acusação de infame “literatura de Sodoma”. Dita dissolvente, que podiam as criações contra o “pudico rigor” do biblioclasmo? Espantoso é ainda que a mola demolidora tenha sido agitada por uns quantos jovens ciosos da moralidade.
Pressuroso, Pessoa defenderá Botto e Leal, juntando assim a tríade homossexual  masculina e omitindo o par feminino, atribuindo-lhe mesmo um não lugar, que, por exemplo, um Aquilino contestará ao dizer a escritora uma “poetisa de valor”.
Rente ao corpo e aos sentidos não poucas vezes, a poesia decadente e modernamente sáfica de Judith Teixeira incendeia opiniões e escandaliza meio mundo. O genial Raul Brandão não entende mesmo que um sujeito lírico feminino possa ter como objecto amoroso uma mulher e pudesse escrever um poema como “A minha amante”! E, afinal, o que havia na poeta que fizesse Marcello Caetano falar de “versalhadas ignóbeis à Judith Teixeira”? Só palavras, como estas, que leio:




Esta entrada corajosa e irreverente na literatura portuguesa custaria a Judith Teixeira um longuíssimo esquecimento, uma quase trágica pulverização. A escritora não esquecerá, na conferência De mim (1926), depois da apreensão de Decadência, as críticas violentas feitas aos outros dois livros de poemas, Castelo de sombras (1923) e Nua. Poemas de Bizâncio (1926), e fá-lo-á plena de inteligência e elegância.
O explicit da composição lírica judithiana “O poemeto das sombras”, a última que eu conheço e publicada na revista Terras de Portugal [6] em 1928, bem alude a umas “trevas ululando” e a “longos fantasmas / de negras silhuetas!”. Em breve, um estranho e significativo silêncio cairia sobre a mulher-poeta. Um ano antes do ominoso poema publicara Judith Teixeira as novelas de Satânia – e que título, senhores!
No meio de todos os horrores, ser poeta é um enorme poder. Atacada pelo estertor da Primeira República e pelo Estado Novo nascente, a Judith Teixeira só restava cumprir a pena e o látego do desassombro. Muito estranho um país assim, que fez com a poeta o que, por exemplo, Estaline não fez[7] com Akhmatóva (e como a temia!) e com Pasternák, …
Modulando um título[8] de Herberto Helder, eis um corpo, um luxo e uma obra que não podem ser apagados, tanto mais que, no dizer habilíssimo de George Steiner, a poesia é um “luxo absolutamente necessário”[9].
Aqui, por dentro da terra, na terra que lhe foi nascimento, a poesia cresce. Quem não a ouve? 

[Este texto é, em parte, o apresentado na sessão de lançamento do cromo nº 3 da Viseupédia, em Março de 2011].    





[1] Esta ideia expende-a Mario Vargas Llosa no artigo “Carta de amor - A cultura no gineceu”, in Mulheres. Sonhos possíveis nos anos 90, Suplemento do Público, 22 de Outubro de 1994.
[2] Luís Miguel Nava, poema “Regresso”, in O céu sob as entranhas, Porto, Limiar, 1989.
[3] Cf., v. g. , o cabeçalho da Contemporânea com o nº 3.
[4] Contemporânea. Grande Revista Mensal, nº 2, Junho de 1922, p. 59.  
[5] José-Augusto França, “Contemporânea e os anos 20 portugueses”, in Contemporânea, vol. IV, Lisboa, Contexto, editora, 1992.
[6] Cf. Terras de Portugal, 1928.
[7] Embora tenha liquidado, por exemplo, Isaac Babel.
[8] Refiro-me ao título poético herbertino O corpo O luxo A obra (1978).
[9] Cf. “A necessidade de ler”, in Ler(Livros & Leitores), nº 100, Março 2011, p. 36.