Tuesday, September 26, 2017

Judith Teixeira como pensadora maldita

Judith Teixeira como pensadora maldita

Michel Foucault e G. Deleuze, na «Introduction générale  aux Oeuvres philosophiques complètes de F.Nietzsche», defendem: «Les penseurs «maudits» se reconnaissent de l'extérieur à trois traits : une oeuvre brutalement interrompue, des parents abusifs qui pèsent sur la publication des posthumes, un livre-mystère, quelque chose comme «le livre» dont on ne finit pas de pressentir les secrets.» (Paris, Gallimard, 1967.)
Sem avançar muito, e face ao panorama, parece-me bem integrar Judith Teixeira nos pensadores malditos, se pensarmos nomeadamente no primeiro traço, que inscreve uma obra brutalmente interrompida. 

Sunday, May 21, 2017

Dois poemas de Judith Teixeira no nº 0 da colecção "P de poesia"


Seleccionados por Jorge Vaz de Carvalho, dois poemas ("Onde vou?" e "Rosas pálidas") de Judith Teixeira integram o nº 0 da colecção "P de poesia". O prefácio (pp. 7-14) da face dedicada às mulheres é da responsabilidade de Rita Taborda Duarte. [Lisboa, A Bela e o Monstro, Edições Lda., 2017.]  

Sunday, May 07, 2017

«Ansiedade"


                ANSIEDADE

Minha Mãe! Minha Mãe! quero dormir -
e o vento não me deixa descansar...
Este silvo não deixa de se ouvir...
Parece a voz d'alguém que anda a penar!

Vem agora, escutar o retinir
dos vidros... começou a trovejar.
Fecha a janela, Mãe! Vem-me cobrir.
Mãe! sinto frio, até no teu olhar!

Foge-me tudo, que eu procuro e quero!
Vem perseguir-me a lenda de «Ahasveros»...
Mãe! - expulsou-me o próprio coração!...

Fui até pela Dor repudiada...
Mãe! quero regressar - voltar ao Nada -
e perder-me na grande escuridão!
Noite - Setembro
1922
[JUDITH TEIXEIRA]

Tuesday, March 28, 2017

Judith Teixeira na «Anim'arte» nº 103


Entre as páginas 4 e 5, plasmam-se uma notas biográficas sobre a escritora ("Judith Teixeira: Notas Biográficas") subscritas por Maria das Dores Almeida Henriques, Diretora do Arquivo Distrital de Viseu.

Thursday, November 03, 2016

Memória de Judith Teixeira em conferência de Branca de Gonta Colaço


Memória de Judith Teixeira em conferência de Branca de Gonta Colaço

Vinda da intensidade e do desejo, a literatura de Judith Teixeira pôde ser esquecida como um excesso contra o devir. Mas não o poderia para sempre. Onde tudo é possível, a fissura erótica age e deflagra-se nas camadas mais lateralizadas do desaconchego canónico até ao centro possível – acêntrica, a textologia judithiana é um centro, um outro centro.
Em conferência que não foi descaso, de título «Nós outras, as poetisas», Branca de Gonta Colaço, no ocaso do primeiro quartel do século XX, não omitiu o nome de Judith Teixeira no vasto rol de mulheres poetas convocadas como exemplo e produção literária. Lutando contra o destino, Teixeira publicará, pouco depois, a importante conferência «De mim».

O exercício judithiano dizia então que o nós de Branca de Gonta era a semente da convenção e do artificial. Um eu, em poesia, não poderia seu um nós. E ainda não é… 

Tuesday, November 01, 2016

Libânio da Silva e Judith Teixeira



Libânio da Silva é um reputado impressor e livreiro que José-Augusto França não esquece, lembrando-o mesmo como detentor de um admirável parque gráfico no primeiro quartel do século XX português. Foi nas máquinas da Imprensa Libânio da Silva que Judith Teixeira começou por desvelar o mais íntimo do seu íntimo em rizoma. O mistério e o risco desafiavam os tempos...

Sunday, October 09, 2016

René P. Garay e Judith Teixeira


É com saudade que convoco René Garay a esta via judithiana. Conheci-o pelo início do século, não sabendo ainda que a vida lhe viria, muito em breve, a pregar uma trágica partida. Eufóricos fomos judithianos até à medula. Nestas atas, que contêm as participações no colóquio «Percursos de Eros - Representações do erotismo», está presente o importante ensaio de Garay  «Judith Teixeira - A voz sáfica do Primeiro Modernismo Português» (pp. 141-154). Ocorrido o colóquio algum tempo antes, a publicação é de 2003.

Thursday, August 11, 2016

Judith Teixeira: fotologia


Abrindo-se em luz, esta composição poética judithiana congloba sob o rigor do sol um vasto conjunto de semas criadores da isotopia da luz, do diurno. Às vezes, cada verso é mesmo uma exorbitância disso. Irrompendo, deflagrando no manto de palavras o clamor do excesso, visível também nos prefixos, este modo encontrável no universo poético da escritora, este jeito à rebours da norma lírica nacional, ambos, modo e jeito, são afirmação de diferença e originalidade. Quem mais, afinal, assim luzindo na poesia portuguesa? 

Thursday, August 04, 2016

Teografias judithianas


Em ano luminoso, astral, é importante assinalar alguns dos vezos da lírica de Judith Teixeira - esta pele sideral, por exemplo, que descortinamos no soneto "Alvorecer" é perfeita imagem de um lugar produtivo. Eufórica a natureza, como festa divina, eis que o sujeito lírico colhe, na efusão dos sentidos, o alor vivo do Criador. Marca funda, esta, como etos transbordante na poesia judithiana. 

Wednesday, August 03, 2016

A tópica do mar em Judith Teixeira


Comum como o lugar disso é o mar também uma presença no universo judithiano. Na juntura do poente, laço e nó de cópula corporal, o sujeito poético espraia-se em ritualidade aquática. Na exacerbação da pele, do sal conectivo ao fulgor do sofrimento, eis que o sangue admonitório convoca o risco e a fenda da tragédia. Afinal é de injunção que este mar é feito - de abandono e apartamento, leia-se. Di-lo a lua, seu mágico espelho. 
[viseu, 3 de agosto de 2016, na melhor espuma do dia... martim de gouveia e sousa.] 

Friday, July 29, 2016

Uma edição de "Decadência" de 2002



Em 2002, veio a lume, inserida na coleção «herança cultural», uma edição da primeira coletânea poética de Judith Teixeira. O livro saiu com chancela do Instituto Politécnico de Viseu. Tem ainda, entre as páginas 3 e 28, um prefácio de Martim de Gouveia e Sousa.

Friday, June 10, 2016

Judith Teixeira e Nita Clímaco – uma aproximação em "pentateuco"



Judith Teixeira e Nita Clímaco – uma aproximação em pentateuco
Ferindo a codificação escatológica, parece haver uma certa transcendência nalguns destinos como se na estrutura triádica do profetismo houvesse oponentes mediadores e comunidades organizadas para fins apocalípticos. Verta-se na genealogia da cultura mais filologia, mais textualidade, e conclua-se da existência de filamentos nodais, lugares transmissivos e fluxos de influência. Um elemento criativo no campo do cânone literário pode hibernar, imergir ou emergir, estabelecendo, de acordo com a ritualidade da ação, um laço mais ou menos apertado com outros elementos de semelhante linhagem. Aliás, a literatura é isto – genealogia e linhagem.
E por aí vou escrevendo o pentagrama: Judith Teixeira (1880-1959) publicou cinco livros (Decadência e Castelo de sombras, em 1923; Nua. Poemas de Bizâncio e a conferência De mim, ambos em 1926; e Satânia, em 1927), todos na mesma década; Nita Clímaco, por seu lado, publicou, durante a década de sessenta do mesmo século, os romances Falsos preconceitos (1964), Pigalle (1965), O adolescente (1966), A salto (1967) e A francesa[1] (1968). A aproximação é, visivelmente, inevitável.
Em entrevista que, infelizmente, não deveio célebre, Nita Clímaco afirma ter escrito cinco livros, todos censurados, e que isso a levou à desistência, vencida pelas proibições e enxovalhos. Ensina o tempo feiticeiro que não há Ramiros Valadões que possam calar a raiz ao pensamento. Os golpes apocalípticos serão, para uns, genesíacos. Para Clímaco e para Judith, como se tem visto, que se vão “da lei da morte libertando”.

Viseu, 10 de junho de 2016
Martim de Gouveia e Sousa



[1] De acordo com a informação da página de rosto, o volume contém dois minirromances: A francesa e Encontros. E até este caso apresenta o correlato com Satânia, que apresenta, como se sabe, duas novelas.