Sunday, September 10, 2006

na década de 20: Judith e Tsvetáeva


São multívocos os lindes da ciência do belo e existem jóias lapidadas que parecem moldadas por uma força de influência, que diminui as fronteiras e os desencontros geográficos. As melhores palavras são as dos poetas, porque na poesia dominam ainda o império da ética e a frincha de esperança de que o homem sempre carece.
Junho de 1922 é uma época emblemática para Judith Teixeira e Tsvetáeva: utilizando processos retórico-poéticos diferenciados, ambas as escritoras manifestam nesse mês e nos anos próximos um importante fulgor criativo. Teixeira detém uma sintaxe mais linear e directa, enquanto Tsvetáeva ajoelha à alegria barroca, enfrentando ambas incompreensíveis atritos e perseguições, que não levaram nunca ao servilismo e à sujeição, antes fazendo redobrar os textos de ousadias expressionais e construtivas.
Em Junho de 1922, escreve Judith Teixeira o “escandaloso” poema “A Minha Amante”, criação poetológica sob o influxo de epígrafe homo-autoral, que contém alusões a paraísos artificiais, deflagrando depois, no corpo textual, toda uma ambiência sáfica (“Não entendem dos meus amores contigo”) que muitas consciências parece ter perturbado na década de 20. Em simultâneo, a escritora moscovita, afastada da pátria, constrói um intrincado e fascinante poema que não despreza também os abismos do amor (“Terreno amor, / Fado cruel. / Mãos: luz e sal. / Boca: sangue e breu.”).
Enfrentando totalitarismos e pressões sociais, as duas mulheres cedo souberam que ser-se sujeito é viver-se no “êxtase da procriação”. Assim as palavras finais do poema judithiano, cavando o mistério da poesia. Assim o eco e as ruínas produtivas de il miglior fabro… Como, aliás, se vê no tsvetáeviano poema que apresento em passo final, com tradução de Augusto de Campos:
NEREIDA
Nereida! Onda!
Ela. Eu. Nós dois.
Nada além de
Onda ou náiade.

Teu nome, tumba,
Reconheço, onde for,
Na fé - o altar, no altar - a cruz.
O terceiro, no amor.

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